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Em entrevista à CWS, o presidente Fernando Teles revela como a companhia tem usado a tecnologia para impulsionar os pagamentos eletrônicos no Brasil – eles chegaram até no transporte público. Se depender das iniciativas da multinacional americana, o dinheiro em espécie está com os dias contados

Você acorda atrasado para ir ao trabalho, sai apressado e, no caminho, desiste de tomar um cafezinho por causa da longa fila no caixa da padaria. Finalmente, ao chegar ao metrô, abre a carteira para comprar o bilhete e se dá conta que esqueceu de sacar dinheiro. Felizmente, situações corriqueiras como essas já podem ficar no passado.

Isso porque grandes companhias de cartões de crédito vêm inserindo a tecnologia NFC (Near Field Communication) em suas operações. Trata-se de pagamentos por aproximação, ou seja, sem senha, o que promete agilizar processos, viabilizar o dinheiro digital e trazer mais comodidade ao usuário.

Em mercados internacionais, como a Austrália, o “modus operandis” chega a representar 92% das transações. Estima-se que no mundo, uma em cada cinco transações feitas presencialmente é realizada sem contato (do inglês, contactless).

O Brasil ainda está no início da implementação desse novo modelo de pagamento, embora nossa infraestrutura já esteja avançando. “Já são mais de três milhões de terminais que aceitam a tecnologia”, afirma o presidente da Visa no Brasil, Fernando Teles.

Há pouco mais de dois anos e meio no comando da operação brasileira, Teles está empenhado em colocar em prática ações cada vez mais digitais no cotidiano dos brasileiros, sobretudo, desburocratizando transações financeiras. Como a última, lançada no Rio de Janeiro em parceria com o metrô da cidade.

Todas as 41 estações implementaram o pagamento por aproximação: o usuário, agora, pode usar o metrô sem se preocupar em recarregar o cartão de transporte ou levar dinheiro em espécie na carteira para comprar o bilhete.

De olho no digital

Fernando Teles, da Visa: “Estamos caminhando para criar a primeira ilha cashless do Brasil”. Foto: divulgação

Para experimentar a nova forma de acesso, basta ir a um dos validadores sinalizados e aproximar o cartão de crédito pessoal ou dispositivo móvel com a tecnologia NFC. “A novidade vai permitir economia de tempo para o cliente e maior fluidez no embarque”, explica o executivo.

A cobrança da tarifa será debitada diretamente na fatura, sem custo adicional ou taxas, ao final de cada dia de uso. “Os clientes também podem usar seu cartão Visa em carteiras digitais, como Apple Pay e Samsung Pay, para conseguirem realizar o pagamento por aproximação.”

Cidades do futuro já no presente

Outra estratégia que está em fase de implementação é a pulseira NADA, acessório que integra o programa “Cidades do Futuro”. Como o nome já diz, trata-se uma pulseira que viabiliza pagamentos por aproximação em cidades com pouca infraestrutura, como falta de caixas eletrônicos ou sinal de internet.

Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco, é uma delas. “Os turistas e os habitantes acabam dependendo muito do dinheiro em espécie e dos caixas automáticos, o que pode ser um tanto quanto inconveniente e inseguro se você está tirando férias ou se está empreendendo”, afirma Teles.

Para entender melhor o impacto que os pagamentos digitais podem ter no crescimento econômico, a Visa encomendou um estudo, conduzido de forma independente pela Roubini ThoughtLab, para analisar 100 cidades no mundo.

Intitulado “Cashless Cities: Realizing the Benefits of Digital Payments” (Cidades sem dinheiro: alcançando os benefícios dos pagamentos digitais), ele quantifica os possíveis benefícios líquidos que consumidores, empresas e até governos vivenciariam conforme suas cidades fossem migrando para um nível alcançável de capacidade sem dinheiro.

O benefício da troca do dinheiro físico por meios eletrônicos pode chegar até US$ 470 bilhões por ano nas 100 cidades analisadas, o que equivale a cerca de 3% do PIB médio de todas elas. Se considerarmos São Paulo e Brasília, o ganho chegaria a US$ 13 bilhões levando em consideração as duas cidades juntas. 

“Nas cidades que dependem bastante de dinheiro em espécie, os benefícios para as companhias seriam significativos, com um impacto líquido médio estimado de quase US$ 13,5 mil por ano para cada milhão de dólares de receita, por empresa. Os ganhos poderiam ser substanciais para todas elas, inclusive as situadas em cidades com maior penetração de pagamentos digitais, onde os benefícios ficariam na faixa de US$ 10,8 mil por ano para cada milhão de dólares de receita, por empresa”, diz Fernando Teles.

Enquanto a economia de tempo poderia chegar a 3,1 bilhões de horas. As companhias, segundo Teles, podem se beneficiar ainda de um aumento nas vendas quando aceitam pagamentos digitais, pois têm a possibilidade de alcançar uma base de clientes mais ampla usando esses canais.

“As lojas físicas costumam vender mais quando aceitam essas formas. Nossa pesquisa descobriu que mesmo as empresas que ainda estão nos primeiros estágios da transformação digital poderiam aumentar suas vendas em até 7% quando começarem a aceitar pagamentos digitais”, revela.

Na entrevista a seguir, Fernando Teles fala das iniciativas digitais da Visa e os desafios do setor no País:

CWS: As chamadas transações sem contato já são realidade no mundo. Como nós estamos posicionados nesse cenário?

Fernando Teles: Os pagamentos por aproximação já são realidade em diversos países no mundo. Na Austrália, por exemplo, após a adoção de pagamentos por aproximação, conseguimos observar uma queda no uso do dinheiro em espécie. No Brasil, a infraestrutura de aceitação já está bem avançada, e hoje já temos mais de três milhões de terminais que aceitam a tecnologia. Do lado dos emissores, vemos cada vez mais bancos, varejistas e fintechs apostando na comodidade e agilidade que o produto traz, oferecendo o cartão com a tecnologia por aproximação para seus consumidores finais.

CWS: Como a Visa tem garantido a segurança nesse tipo de operação?

Fernando Teles: Desde 2016, a Visa e seus parceiros trouxeram os chamados wearables – ou vestíveis – de pagamento para o mercado. Foram lançados relógios, pulseiras, adesivos e até anéis. Também naquele ano, passamos a oferecer a tecnologia de tokenização, que permite que o pagamento com as Pays e carteiras digitais sejam feitos com uma camada a mais de segurança ao substituir dados sigilosos de titulares de cartões — como números de contas pessoais e datas de vencimento — por um identificador único digital (um “token”) que pode ser utilizado para pagamento sem que esses dados sigilosos sejam expostos.

CWS: A Visa também anunciou uma parceria com o MetrôRio. Os pagamentos digitais já estão em operação?

Fernando Teles: A concessionária começou a aceitar desde o dia 29 de abril, em todas as suas 41 estações, o pagamento de passagens por meio de celular, cartão de crédito, pulseira e relógio com a tecnologia por aproximação. A iniciativa, desenvolvida pelo MetrôRio e pela Visa, conta ainda com a parceria do Banco do Brasil, Bradesco e Cielo, e proporcionará mais agilidade aos clientes de qualquer emissor que possuem dispositivos por aproximação.

CWS: Quais são os ganhos para o usuário?

Fernando Teles: Com a nova forma de pagamento, o passageiro não vai mais precisar comprar ou recarregar um bilhete específico do metrô. Basta ir a um dos validadores sinalizados para o uso da nova tecnologia e aproximar o cartão de crédito pessoal ou o dispositivo móvel com a tecnologia NFC. A novidade vai permitir economia de tempo para o cliente e maior fluidez no embarque. A cobrança da tarifa será debitada diretamente na fatura, sem custo adicional ou taxas, ao final de cada dia de uso. Em um primeiro momento, somente os cartões de crédito da Visa estarão habilitados para utilização. Os clientes também podem usar seu cartão Visa em carteiras digitais como Apple Pay e Samsung Pay para conseguirem realizar o pagamento por aproximação.

CWS: Quais são os desafios para a inserção de iniciativas digitais hoje?

Fernando Teles: Quando a Visa implementou o chip no final da década de 1990, houve todo um esforço conjunto da indústria para educar comércios e consumidores sobre os benefícios da tecnologia e instruir como usar o cartão. Naquele momento, o consumidor teria que lembrar uma senha e colocá-la no terminal, e não mais assinar o comprovante de compra. Hoje, temos os mesmos desafios. Precisamos educar os lojistas e os consumidores para utilizarem esse meio de pagamento. Ao mesmo tempo, observamos em outros países que, à medida que o consumidor utiliza o cartão, wearable ou celular para fazer pagamentos por aproximação, ele passa a adotar cada vez mais esse hábito dada toda a conveniência e agilidade. Esse esforço será feito não só pela Visa, como por credenciadores, bancos e fintechs.

CWS: Como a Visa pretende atuar com o público “analógico”, que tem receio na adesão de pagamentos digitais?

Fernando Teles: A experiência que o consumidor terá no ponto de venda será determinante para a mudança de hábito. O pagamento por aproximação é ágil e seguro, o que poderá influenciar o consumidor a adotar mais o cartão, wearable ou celular e realizar transações por aproximação. Toda a transação por aproximação com cartões, wearables ou celulares possui o mesmo nível de segurança oferecido pela Visa. No caso dos celulares e dispositivos conectados na internet das coisas, ainda temos a tecnologia de tokenização, que substitui os dados sigilosos do portador do cartão por um identificador único digital – o token.

CWS: Outra iniciativa é a “Cidades do Futuro”. Como funciona na prática?

Fernando Teles: O programa “Cidades do Futuro” tem como objetivo levar os benefícios do pagamento eletrônico, tais como segurança, maior formalização da economia, eficiência e conveniência a mais cidades brasileiras. A iniciativa é um trabalho em conjunto com parceiros e clientes, como emissores, credenciadores e estabelecimentos comerciais, para incentivar o uso dos meios eletrônicos de pagamento em locais onde ainda predomina o uso do dinheiro em papel, buscando o desenvolvimento local.

CWS: A ação contemplará quantas cidades?

Fernando Teles: Começamos em 2018 com três cidades: Maringá, Belém e Campina Grande. Agora, vamos expandir para 200 cidades, em todas as regiões do País (leia mais). As cidades foram escolhidas por serem importantes centros regionais de desenvolvimento, com uma forte penetração do dinheiro em espécie, e também com base no ‘Índice de Maturidade para Pagamentos Digitais’, levantamento realizado pela Visa Consulting & Analytics, que classificou os municípios em quatro estágios relacionados ao nível de desenvolvimento dos pagamentos eletrônicos. Promoveremos uma série de ativações, como promoções de incentivo ao uso do cartão, ações de educação financeira e crescimento da emissão e da aceitação dos pagamentos eletrônicos.

CWS: Em Fernando de Noronha, a pulseira NADA já está em fase de implementação. Qual é a expectativa desse projeto?

Fernando Teles: A pulseira NADA faz parte do programa “Cidades do Futuro”. Fernando de Noronha é uma dessas cidades, que por sua localização, tem problemas de infraestrutura como a falta de internet, que causa dificuldades para o uso de pagamentos eletrônicos. Os turistas e os habitantes acabam dependendo muito do dinheiro em espécie e dos caixas automáticos, o que pode ser um tanto quanto inconveniente e inseguro se você está tirando férias ou se está empreendendo. Para simplificar a vida desses dois públicos, investimos na NADA, uma pulseira que realiza seus pagamentos ao simplesmente aproximá-la em terminais espalhados por toda cidade. Com apoio de nossos parceiros, criamos um sistema que funciona em toda a ilha sem depender da conexão ou de sinal 3G. Assim, estamos caminhando para criar a primeira ilha cashless do Brasil. Os benefícios de uma cidade migrando para pagamentos digitais será experimentada em um dos cenários mais bonitos do Brasil. Esta pulseira em si foi criada para o caso de Noronha, porém pode ser usada em qualquer terminal que aceite pagamento por aproximação, e se assemelha bastante aos outros devices que temos tanto falado, como os pagamentos por celular ou relógios.

CWS: Os pagamentos digitais garantem ganhos até para os governos das cidades analisadas no estudo encomendado pela Visa…

Fernando Teles: O estudo “Cashless Cities: Realizing the Benefits of Digital Payments” (Cidades sem dinheiro: alcançando os benefícios dos pagamentos digitais) mostrou que os pagamentos digitais podem reduzir os custos dos governos – e até a criminalidade: ao atingirem um nível alcançável de capacidade sem dinheiro, os governos das 100 cidades poderiam atingir quase US$130 bilhões por ano em benefícios diretos estimados com a maior adoção de pagamentos digitais. Este impacto resulta de fatores que incluem o aumento da arrecadação fiscal, a elevação do crescimento econômico, as economias de custo geradas pelo aumento da eficiência administrativa e a redução nos gastos da justiça criminal, dada a queda nos crimes associados ao dinheiro.

CWS: E a análise do lado do consumidor?

Fernando Teles: Os pagamentos digitais podem ajudar o consumidor a poupar tempo e dinheiro, não importa sua renda: ao atingirem um nível alcançável de capacidade sem dinheiro, os consumidores das 100 cidades poderiam atingir quase US$ 28 bilhões por ano em benefícios líquidos diretos estimados com a maior adoção de pagamentos digitais. Este impacto resulta de fatores que incluem até 3,1 bilhões de horas economizadas na realização de transações bancárias, de varejo e transporte, além de redução nos crimes associados ao dinheiro. O estudo descobriu que, normalmente, os pagamentos digitais são menos onerosos para consumidores, empresas e governos do que os pagamentos em dinheiro. O estudo apontou que, nas 100 cidades, os consumidores que não têm conta bancária gastam de US$ 7 a US$ 15 ao mês, em média, com atividades para retirar fundos em dinheiro, como o saque de cheques. Ao reduzir o uso de dinheiro, estima-se que cada consumidor sem conta bancária poderia economizar, em média, de US$ 84 a US$ 180 ao ano. Os pagamentos digitais – em especial os métodos móveis – podem ajudar a promover inclusão financeira, pois permitem que mais consumidores que não têm conta bancária tenham acesso a serviços financeiros.

CWS: Muito se fala também da transferência de recursos entre pessoas físicas, sem a necessidade de ter conta em banco. Como isso será possível e como a ação refletirá no cotidiano dos consumidores?

Fernando Teles: A tecnologia dos pagamentos instantâneos permite a transferência de uma quantia de um cartão para outro, a qualquer hora do dia, por uma rede social ou um aplicativo em seu smartphone – mas em nenhum momento deixa de necessitar da instituição de pagamento, eles continuam fazendo parte desse formato de pagamento, assim como os credenciadores. O sistema beneficia pessoas que não têm conta bancária, pois podem usufruir da tecnologia com o uso de um cartão pré-pago. Isso elimina a necessidade de pagar taxas de DOC ou TED ou de ficar refém do horário bancário, trazendo mais facilidade e rapidez nas transferências e, de quebra, maior comodidade para a população. Uma opção a mais para transferências entre pessoas ou até mesmo empresas.

CWS: O digital, então, será a grande aposta da Visa para os próximos anos?

Fernando Teles: Sem dúvida, a Visa continuará focada em sua missão de conectar o mundo através de uma rede de pagamentos digital confiável e segura, que permite que indivíduos, negócios e economias prosperem.

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