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Felipe Trevisan, fundador da plataforma de logística Vuxx, explica como sua empresa tem ajudado varejistas durante a crise, faz um balanço do impacto em seu negócio e prevê um novo momento para o mercado após a pandemia

O isolamento social provocado pelo coronavírus tem colocado em xeque a operação e os modelos de negócios de empresas de diferentes setores da economia, sobretudo aquelas que ainda ensaiavam a entrada no universo digital.

Num momento de incertezas, as companhias precisam, agora, reunir forças e estratégias para manter o negócio ativo, gerando receita. Quem conseguir se posicionar em um cenário adverso, mudando seus canais de relacionamento e se adaptando ao digital, lidará melhor com a crise.

É o que tem feito empresas do setor varejista, que, agora, oferecem novos canais de relacionamento e de entrega, através de parcerias com companhias de logística que têm usado, cada vez mais, soluções e ferramentas digitais. Caso da Vuxx, uma plataforma que conecta motoristas de carga profissionais com companhias de diferentes segmentos.

Presente em dez cidades em São Paulo, a previsão é triplicar sua área de atuação até o final deste ano, abrangendo outros estados brasileiros. Com uma carteira atual com mais de 300 clientes ativos, sendo a maioria B2B, como o grupo francês Saint-Gobain, ela tem sentido os efeitos da crise de maneira bem menos dolorosa que o reportado neste setor.

Segundo uma pesquisa da NTC&Logística, a queda total no volume de cargas do transporte rodoviário, até agora, foi de 43,9% em relação ao movimento médio antes das medidas preventivas contra o coronavírus.

“Como atuamos na distribuição diária de mercadorias entre as companhias, como suprimentos para restaurantes, peças automotivas, bebidas, alimentos e itens para lojas de material de construção, por enquanto temos mantido os serviços normalmente e com demanda relativamente boa”, diz Felipe Trevisan, fundador e CEO da Vuxx.

Trevisan credita o pouco impacto da crise em sua operação ao comércio eletrônico, que vem nadando contra a maré negativa por conta do fechamento de lojas físicas e da pouca interação social.

Felipe, da Vuxx

Para Felipe Trevisan, da Vuxx, o setor deverá ficar mais digitalizado após a crise. Foto: divulgação

“Houve, na realidade, um aumento de pedidos, sobretudo por e-commerce e redes de supermercados, que viram um crescimento na demanda por entregas das compras em domicílio”, complementa o executivo, que tem como missão principal, agora, ajudar varejistas a continuarem eficientes durante a pandemia.

Leia, a seguir, a entrevista com Felipe Trevisan:

CWS: Por que a solução de vocês é mais barata do que ter uma malha de entrega própria?

Felipe Trevisan: Não diria apenas que nossa solução é mais barata que ter uma frota própria, mas, sim, mais viável para as empresas focarem no “core business” e desenvolver novas oportunidades para o segmento em que estão inseridas.

O grande insight para a criação da Vuxx surgiu quando, em uma visita ao centro de distribuição de uma grande companhia, percebi que a alta tecnologia da indústria 4.0 não conversava diretamente com a otimização do potencial existente ali.

Nas docas, área dedicada ao transporte de carga, havia caixas jogadas, caminhões parados, motoristas irritados, papéis voando, sistemas de computadores desatualizados, entre outras falhas.

Em paralelo a isso, vimos um crescimento significativo no número de Veículos Urbanos de Carga (VUCs) em grandes centros metropolitanos, como São Paulo, em decorrência das diversas restrições para otimizar o trânsito nessas cidades.

Por isso, vimos que o sistema ideal seria uma plataforma digital e integrada para conectar caminhoneiros profissionais às demandas de entrega, gerando eficiência para as duas pontas da cadeia.

CWS: Quanto os clientes conseguem economizar com a plataforma?

Felipe Trevisan: As nossas projeções mostram que, ao aderir as soluções da Vuxx, os custos com entregas e distribuição podem diminuir em até 30%.

CWS: Hoje, quais soluções oferecem para que varejistas possam continuar eficientes durante a crise?

Felipe Trevisan: A Vuxx quer otimizar o sistema de distribuição de carga fracionada em grandes centros urbanos e oferecer mais oportunidades aos motoristas de VUCs que estão ociosos durante o dia.

Por isso, oferecemos uma solução tecnológica ágil e completa para unir estes dois lados: caminhoneiros e empresas que precisam realizar o deslocamento de produtos de forma rápida em grandes centros urbanos, como São Paulo, por exemplo.

Além da agilidade, a nossa plataforma ajuda a aumentar a competitividade do frete e permite que seus clientes foquem em seu negócio, que é produzir as mercadorias.

CWS: Como a Vuxx pretende ajudar empresas a preservarem seus caixas na segunda onda da crise do coronavírus, que será a econômica?

Felipe Trevisan: Além de manter ativa a rede de entregas das empresas, estamos planejando outras oportunidades para gerar receita para elas. Uma delas, em planos de se viabilizar, é um serviço de consultoria para aquelas que desejam vender sua frota e adotar as entregas por demanda, por meio da nossa plataforma.

Estamos formatando um projeto, junto a uma instituição financeira, e será uma forma de ajudar o setor a se modernizar, circular receita e melhorar “a vida” das empresas e dos caminhoneiros também, pois eles poderão ficar com o veículo e otimizar seus serviços prestados.

CWS: Houve um aumento no número de clientes desde que a crise começou?

Felipe Trevisan: Não houve um aumento anormal durante a crise, mas os ciclos de venda passaram de uma semana para três semanas. De qualquer forma, esperamos triplicar nossa base de clientes até o final do ano.

CWS: O que o setor aprenderá com o coronavírus?

Felipe Trevisan: Acredito que, durante a crise, as operações logísticas serão mais difíceis e os setores de comércio serão muito mais afetados. O pós-crise pode ser preocupante por um impacto maior na economia, mas a principal consequência será a aceleração da transformação digital no setor de transportes e logística.

Além disso, será preciso rever profundamente o Supply Chian Disruption Risks (risco de quebra da cadeia de suprimentos). Vemos que várias empresas gostam de centralizar fornecedores e meios de transporte, mas não possuem um plano de gerenciamento de crise.

CWS: Como assim?

Felipe Trevisan: Por exemplo, uma empresa que tem 100% das importações através de um único porto com um único fornecedor da China é muito mais suscetível a um evento como o do coronavírus. As relações com os fornecedores de insumos e de serviços serão revistas para que haja, no mínimo, planos de contenção e relações comerciais mais flexíveis nas operações.

O coronavírus está testando cada empresa e indivíduo na sua capacidade de execução, comunicação e especialmente na adaptabilidade. Acredito que a estratégia da SC das companhias será um pouco mais voltada para a velocidade de adaptação e flexibilidade.

CWS: Qual será o papel da crise tratando-se de comportamento de consumo?

Felipe Trevisan: O isolamento que estamos vivendo para diminuir a velocidade da pandemia irá, sem dúvida, aumentar as vendas do e-commerce e, mais importante, acelerará a mudança de como nos comportamos.

Especialmente compras de supermercado e farmácia crescerão mais rapidamente no pós-crise, tendo em vista que, como são itens essenciais, as pessoas são forçadas a experimentarem a compra digital.

As empresas de logísticas já estão olhando para o e-commerce como algo crucial para sua adaptação. Agora elas devem, mais do que nunca, se preparar para o digital.

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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