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O termo em inglês, que está cada vez mais popular no mundo dos negócios, representa um dos motores da transformação digital e vem chamando a atenção para suas infinitas possibilidades. Conversamos com um especialista da área que explica melhor o funcionamento do sistema

A expressão pode soar estranha para quem não é da área de tecnologia, mas ela, aos poucos, vem ganhando popularidade no mundo dos negócios por representar um dos pilares da transformação digital. Trata-se da API, acrônimo do termo em inglês Application Programming Interface (em português, Interface de Programação de Aplicações). Você já ouviu falar?

As APIs possibilitam que diferentes plataformas de software possam se interligar e se comunicar entre si – uma espécie de “neurônios da nuvem” por conta do trâmite de dados. Elas, sobretudo, têm contribuído com a inovação, uma vez que há integração entre corporações e com o ecossistema digital como um todo.

Trazendo o sistema para fora da rede, ele funciona da mesma forma quando aprendemos um novo idioma: decodificamos palavras e, assim, conseguimos nos comunicar de forma clara e fluida com pessoas que falam a mesma língua. Do lado tecnológico, cada software tem seu próprio idioma e, para que consiga se comunicar com outros, é preciso integrar diferentes linguagens, as APIs.

Na prática, elas assimilam informações provenientes de redes sociais, empresas governamentais e outros provedores de informação, como aplicativos, que acessam dados através desses canais.

“Qualquer negócio que envolva informação digital e tenha presença na internet pode se beneficiar do uso de API, seja para integrar serviços e parceiros, ou na criação de sua própria API, através de um novo modelo de negócio ou serviço”, explica Flávio Coelho, professor da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV EMAp).

Ao pedir uma refeição por aplicativo, por exemplo, é provável que o app faça uso da API do Google Maps, que faz o mapeamento dos restaurantes mais próximos de acordo com a localização da pessoa. “Apesar de serem invisíveis aos usuários, as APIs servem como pontes ao integrar softwares e garantem que o consumidor tenha uma experiência fluida e imediata”, complementa.

Benefícios do ecossistema

Em outra analogia, podemos compará-las com o amadurecimento do mercado industrial. Antigamente, a própria indústria era responsável inteiramente pela produção de um produto final – desde seus componentes até o acabamento. Era preciso produzir tudo internamente, uma vez que não havia um sistema que pudesse dar suporte à produção.

Conforme o mercado cresce e amadurece, surgem diversas empresas independentes que encontram oportunidades para alimentar essa cadeia de suprimentos, formando assim um ecossistema. Hoje, é possível produzir apenas um único componente e, ainda assim, ser relevante em um setor.

Da mesma maneira que funciona o cenário industrial atual, as APIs permitem uma combinação de múltiplos serviços e, o mais importante, de forma segura e sem que o empreendedor tenha de despender um valor alto em grandes estruturas físicas.

“Além disso, as novas entrantes não precisam ‘reinventar a roda’, já que elas, agora, podem se concentrar apenas em sua competência principal, aproveitando dados e serviços produzidos por outras companhias”, analisa Coelho.

De acordo com o especialista, na chamada “economia das APIs”, o céu é o limite. “O que uma API pode fazer depende apenas da imaginação de seus criadores e das possibilidades de transmissão e dados via internet. A API do YouTube, por exemplo, permite o streaming de vídeos; enquanto a do Google Maps, viabiliza as coordenadas de um endereço ou o caminho mais curto para chegar até ele.”

API Economy

Brian Halligan, CEO da HubSpot, uma das principais empresas de marketing de conteúdo do mundo, analisou as integrações que compõem o ecossistema digital, classificando-as como “links”. Para ele, os links estão para a internet da mesma forma que os dólares para a economia americana, ou seja, são fundamentais para o crescimento e a evolução do sistema.

Não por acaso, nas primeiras posições do ranking das companhias mais poderosas do planeta estão o Google e a Amazon, gigantes que atuam com dados e que têm mais “links” em seus ecossistemas.

Destaque nesse mercado, a AWS, braço de tecnologia da Amazon, se tornou referência por oferecer a terceiros parte de sua robusta infraestrutura digital.

Flávio Coelho, professor da FGV: “O que uma API pode fazer depende apenas da imaginação de seus criadores”. Foto: divulgação

“A Amazon tem a maior exposição neste mercado, embora outras companhias também estejam avançando, como o Walmart, que oferece dezenas de APIs com diversos serviços relacionados ao seu business principal de comércio eletrônico. No Brasil, o Magazine Luiza já aparece nesse espaço através de seu marketplace”, comenta Coelho.

Em evidência no mercado latino-americano, a colombiana Rappi, que conecta diversos estabelecimentos e serviços em sua plataforma, ressalta que as APIs garantem, sobretudo, melhor nível de qualidade de serviço.

“Por meio delas, conseguimos garantir a usabilidade do operador e do parceiro, além de oferecer um portfólio cada vez mais completo para suprir todas as necessidades de nossos clientes”, diz Ricardo Bechara, diretor de expansão e cofundador da Rappi Brasil.

Embora não possa revelar a quantidade de parceiros integrados ou planos mais detalhados, por uma questão estratégica, Bechara afirma que o “cardápio” está aumentando rapidamente. A startup, assim como outros players, entrou para a disputa acirrada dos chamados “super apps”, aplicativos que oferecem de tudo, seguindo o exemplo do WeChat, da chinesa Tencent.

Hoje, o usuário da Rappi já tem acesso a restaurantes, farmácias, supermercados, locação de patinetes, entre outros serviços que vêm sendo acrescidos mensalmente. “Em média, conseguimos acrescentar novos produtos a cada 19 dias.”

Crescimento acelerado

Atualmente, é quase impossível um sistema não ter, ao menos, uma integração via API. Apesar de não haver um número exato delas em circulação, o site ProgrammableWeb contabiliza mais de 22 mil em seu catálogo. Através da página, é possível ter acesso também a um gráfico que mostra o crescimento nos últimos anos: 8.076 novas APIs foram adicionadas desde 2015; sendo 1.829 desde 2018.

E você sabe quanto este mercado poderá movimentar em breve? Segundo um relatório da consultoria Zion Market Research, a nível global, ele deverá crescer 30% anualmente até 2022, movimentando quase US$ 3,5 bilhões.

A nível global, o mercado de APIs deverá movimentar 30% por ano até 2022

A alta deve-se ao fato de que, cada vez mais, é necessário usar essas interfaces de programação para executar programas e novos serviços que gerem valor ao cliente. Num momento de disrupção no mundo, o ecossistema proporciona outras fontes de receitas através de novos modelos de negócio.

Gustavo Goldenberg, CPO da Vuxx, prevê que será comum companhias como Google e Amazon investirem ou até comprarem outros negócios que usam de forma desproporcional suas APIs, dado que isso demonstra que descobriram uma nova forma de criar valor com a tecnologia fornecida.

“É um formato muito comum de inovação aberta”, diz. “Um exemplo prático e simples são os hackathons (eventos de tecnologia), onde empresas abrem parte de suas APIs para consumo de desenvolvedores a fim de descobrirem formas novas e criativas de utilizar seus ativos tecnológicos”, comenta.

Para Flávio Coelho, no entanto, as companhias devem sempre procurar se já não existe uma pronta antes de desenvolverem qualquer produto tecnológico. “APIs redundantes podem competir entre si também em termos de usabilidade e custo. Existem diversas que fornecem informações meteorológicas, por exemplo, e o mercado é que vai decidir qual será mais bem-sucedida”, diz. “Mas, no Brasil, ainda há muito espaço para crescimento, pois as oferecidas ainda são muito simples e os serviços limitados.”

As empresas que mais crescerão neste ambiente são aquelas que conseguirem usar as APIs para além da replicação online de seu negócio tradicional, aponta o professor. “Entendendo sempre que o poder delas está na recombinação de serviços que formarão um mercado que ainda nem imaginamos”, complementa Coelho. E você, como imagina o futuro das APIs?

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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