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Em entrevista à CWS Insights, Vincenzo Spiezia, coordenador do estudo que analisa a transformação digital no País, revela a importância da adoção de tecnologias para a recuperação da economia após a pandemia

Em um momento em que a digitalização tem sido a resposta para empresas continuarem ativas no mercado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) analisou, a fundo, como o Brasil tem lidado com a transformação digital e sua real importância para o crescimento do País.

Na publicação Going Digital in Brazil, coordenada pelo economista Vincenzo Spiezia, a entidade afirma que o digital é a peça-chave para impulsionar o crescimento da produtividade, sobretudo, após a crise do coronavírus.

“As tecnologias digitais vão agir para alavancar a inovação nas empresas e podem ajudar a enfrentar a baixa produtividade no País. A expectativa é que, este ano, a economia brasileira retraia 6,5%”, diz Spiezia, em entrevista à CWS Insights. “Como a pandemia da Covid-19 demonstrou, a digitalização tem um papel crescente na economia e na sociedade e pode, portanto, contribuir para a recuperação do Brasil.”

Na entrevista a seguir, Vincenzo Spiezia analisa a situação do País no cenário digital, os principais gargalos e explica como a digitalização pode elevar a produtividade:

CWS Insights: Tratando-se de digitalização, como a OCDE analisa o Brasil perante outros países emergentes?

Vincenzo Spiezia: A digitalização da economia e da sociedade é um processo multifacetado e não é fácil fazer comparações conclusivas entre países. Por exemplo, 70% dos brasileiros estão conectados à internet, bem acima do México (67%), China (57%), África do Sul (54%) e Índia (41%). Por outro lado, o setor das TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) no Brasil representa apenas 2,6% do PIB, atrás da Índia (5,1%), China (4,8%) e México (3%).

No entanto, o Brasil está lançando, com sucesso, novos produtos e soluções digitais, graças a uma comunidade empresarial entusiasta de novas tecnologias. A política pública também está ajudando, implementando mudanças na regulamentação e permitindo o avanço de fintechs e suas soluções, o que tem feito crescer o número de unicórnios brasileiros (com valorização superior a US$ 1 bilhão). No ranking mundial de unicórnios (CBInsights, 2020), o Brasil ocupa a 12ª posição, acima da Indonésia, África do Sul e México, mas abaixo da China, Índia e Coreia do Sul, países também em desenvolvimento.

CWS Insights: Quais são os principais gargalos para o avanço da digitalização no País?

Vincenzo Spiezia: Os investimentos no mercado digital, por si só, não garantem ganhos de produtividade. As capacidades a nível técnico, de gestão e organizacional, o acesso ao financiamento e a presença de políticas conducentes a um ambiente competitivo são fatores complementares necessários. Para o Brasil avançar, é fundamental a melhoria do ambiente empresarial como um todo, reforçando as competências da força laboral e introduzindo, sobretudo, incentivos fiscais para a atualização tecnológica, formação e investimentos em TIC para todas as empresas, independentemente de seu setor e dimensão. É necessário, sobretudo, o avanço digital nos quatro setores-chave da economia brasileira: agronegócio, saúde, indústria de transformação e finanças.

CWS Insights: Uma recente análise da OCDE diz que o digital tem o poder de aumentar a produtividade no Brasil. Mas de que forma?

Vincenzo Spiezia: O digital tem potencial de aumentar a produtividade das empresas em todos os setores econômicos. Uma vasta literatura tem documentado a existência de ligações positivas entre a adoção de tecnologias digitais e a produtividade das empresas e da indústria. Informações e análises de dados podem ajudar essas companhias a compreenderem melhor seus processos de produção, as necessidades de seus clientes e parceiros, e o ambiente empresarial em geral.

Vincenzo Spiezia

Vincenzo Spiezia, economista da OCDE: “O digital tem potencial de aumentar a produtividade das empresas em todos os setores econômicos”. Foto: divulgação

Outro benefício proveniente da tecnologia é a Internet das Coisas (IoT), que tem um potencial significativo para inovações de processos e ganhos de eficiência. As tecnologias digitais podem também melhorar o acesso das empresas a competências e talentos, como, por exemplo, na externalização de funções empresariais-chave. As novas tecnologias podem também facilitar o acesso a uma gama de instrumentos de financiamento. Finalmente, as plataformas podem apoiar a produtividade das empresas de serviços, por exemplo, através de funcionalidades e algoritmos, que podem trazer uma nova visão e análise de seus consumidores.

CWS Insights: Em um momento que culminou uma crise mundial, qual é a importância – e a necessidade – do digital daqui em diante?

Vincenzo Spiezia: Após a crise da Covid-19, prevê-se que a economia no Brasil se contraia 6,5% em 2020. Contudo, mesmo antes da pandemia, o crescimento econômico era inferior ao dos anos que precederam a recessão de 2014. O que alimentou o crescimento até a recessão de 2014 – uma força de trabalho crescente associada ao aumento dos preços das matérias-primas – parece agora estar esgotada. A população do Brasil está envelhecendo rapidamente e a despesa pública está se revelando cada vez mais difícil de financiar, apelando assim para um modelo econômico diferente.

As tecnologias digitais são uma alavanca para a inovação nas empresas e podem, portanto, ajudar a enfrentar a baixa produtividade no País. Podem também ajudar a reduzir as desigualdades, outro desafio persistente no Brasil. Como a pandemia da Covid-19 demonstrou, o digital tem um papel crescente na economia e na sociedade e pode, portanto, contribuir para a recuperação do País. Os diferentes impactos das medidas de contenção entre setores e grupos socioeconômicos também mostraram fortemente a importância de abordar as clivagens digitais e promover uma transformação digital inclusiva, como recomendamos no estudo.

CWS Insights: Tratando-se, agora, de e-commerce, como o sr. analisa as vendas digitais no Brasil?

Vincenzo Spiezia: Apesar de alguns progressos nos últimos anos, existe ainda um potencial inexplorado para o comércio eletrônico no Brasil. Em 2018, apenas 38% dos usuários da internet compravam online (aproximadamente um quarto da população), sinalizando assim que o valor do e-commerce não atingiu o potencial total de um mercado de 107,5 milhões de consumidores conectados à internet.

CWS: Quais são os gargalos no e-commerce?

Vincenzo Spiezia: Identificamos três: logística, fiscalidade e inclusão financeira. Recomendamos que o Brasil tome medidas para melhorar a inclusão financeira – a adoção do pagamento instantâneo vai nesse sentido – e para fomentar uma maior concorrência no mercado de entrega de encomendas. Além disso, é importante a eliminação das barreiras regulamentares ao desenvolvimento de modelos de comércio eletrônico e a harmonização da taxa do imposto sobre bens e serviços (ICMS) entre estados, como primeiro passo para um sistema federal de IVA (Imposto sobre Valor Agregado).

A questão logística é, sem dúvida, um dos principais fatores que dificultam o comércio eletrônico, devido aos elevados custos e aos longos atrasos na entrega. Sendo a maior economia da América Latina, o Brasil representa cerca de 40% do comércio eletrônico na região. É o país com a maior percentagem de usuários de internet que compram online. No entanto, esses fatores estruturais têm dificultado o progresso do e-commerce.

CWS Insights: Como o sr. enxerga as vendas online daqui para frente e o futuro do varejo físico?

Vincenzo Spiezia: O crescimento do comércio eletrônico no Brasil e no mundo tem sido alimentado pela Covid-19, que tem atuado como um acelerador das vendas online de empresas de diferentes segmentos, atraindo novos clientes e novos tipos de produtos. Parece improvável, no entanto, que o varejo online substitua completamente o físico a curto prazo, embora o comércio eletrônico possa aumentar significativamente nesse período.

É também importante notar que a principal barreira é a preferência em comprar pessoalmente: em 2018, 86% dos consumidores brasileiros relataram que esta era a principal razão para não comprarem online. Embora as preferências dos consumidores possam mudar, este fator revela a importância da multicanalidade para empresas continuarem atendendo seus clientes.

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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