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Conhecida pelos empreendimentos que mesclam apartamentos compactos com espaços compartilhados, a construtora paulista Vitacon inova, mais uma vez, ao lançar a Housi, uma plataforma que reúne “apartamentos na nuvem”, que podem ser alugados pelo tempo que o usuário quiser e sem burocracia

Há exatos dez anos, o mercado imobiliário paulistano começava a ofertar opções mais condizentes à realidade dos solteiros, estudantes, executivos de outras cidades que buscavam moradia perto do trabalho e casais sem filhos: apartamentos compactos.

Por trás dos empreendimentos instalados, em sua maioria, em regiões-chave da cidade, como Itaim Bibi, Vila Olímpia e Jardins, está a construtora e incorporadora Vitacon, do empresário Alexandre Lafer Frankel.

Hoje, são 70 desses prédios que combinam apartamentos (a partir de dez metros quadrados) com ambientes compartilhados, como lavanderia, coworking, academia e até cozinha. Na soma, já são mais de dez mil moradias entregues, que fazem a diferença no cotidiano de muitas pessoas na capital.

A sensação de missão cumprida se fez presente durante toda a entrevista de Frankel à CWS. “Nascemos para mudar a vida das pessoas e, quando encontro um morador que me conta que conseguimos melhorar sua rotina, traz uma grande satisfação”, afirma o executivo. “A comunidade que criamos é o motor para continuarmos inovando.”

A inovação, agora, não tem relação com tijolos, plantas ou concreto. Ela tem o apoio de um “material” indispensável hoje em qualquer setor: a tecnologia. Recentemente, a empresa lançou um serviço on demand, uma espécie de Netflix do mercado imobiliário.

Trata-se da Housi, uma plataforma que reúne apartamentos decorados, prontos para o “consumo”. Nela, o usuário pode escolher o apê que melhor atende suas necessidades, locando-o por horas, dias ou anos. “Totalmente sem burocracia e 100% digital”, garante Frankel.

Apartamento em um clique

A Housi chama a atenção pela facilidade. Em até três minutos, o usuário garante a locação. Ou seja, o cliente da plataforma pode estar na portaria do prédio, se conectar ao aplicativo e, em poucos cliques, ser liberado para usufruir de todas as comodidades do apartamento. “Se quiser, ele pode ir só com a roupa do corpo”, diz.

Ao contrário de flats ou hotéis, nos empreendimentos da Housi a frieza não tem vez. Isso porque as unidades não são padronizadas, variam de tamanho (até 100 m²) e são decoradas e equipadas como em um apartamento convencional.

Também não tem similaridade com a plataforma Airbnb, uma vez que o processo, como um todo, é muito mais ágil. Assim como em outros aplicativos, como o Rappi e o iFood, a pessoa paga o que consome, no caso, os “períodos consumidos”, por meio de cartão de crédito integrado ao app.

Investir em aplicativos, sem dúvida, foi uma boa estratégia. De acordo com dados da Cisco, em 2022 haverá 615,5 milhões de smartphones na América Latina, o que representa crescimento médio anual de 8,7% desde 2017.

Fonte: Cisco

Hoje, no Brasil, segundo a 30º Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), há 230 milhões deles ativos. O número, num futuro próximo, poderá chegar a 240 milhões.

A conectividade em alta anima o executivo, que já compara sua plataforma ao fenômeno dos aplicativos de transporte. “Assim como as pessoas dizem que ‘foram de Uber’ a um determinado lugar, vão se referir à plataforma como ‘eu moro de Housi’”, diz Frankel.

Modelo de negócio escalável

Por enquanto, as cinco mil unidades disponíveis na Housi compreendem a cidade de São Paulo. Mas, em breve, a plataforma contemplará grandes capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador.

Para tornar o negócio escalável, a Vitacon também contará com empreendimentos de outras construtoras e incorporadoras, mas não deixará de lado os próprios projetos. Pelo contrário. Há poucos meses, o fundo americano 7 Bridges Capital Partners injetou R$ 500 milhões na criação de uma joint-venture com a empresa de Frankel.

Alexandre Lafer Frankel, da Vitacon: O empresário quer revolucionar o mercado imobiliário. Foto: divulgação

O investimento, que irá exclusivamente para a carteira da Housi, prevê a construção de 3,5 mil unidades na cidade de São Paulo, com potencial de R$ 2 bilhões em lançamentos nos próximos 12 meses, podendo chegar a R$ 10 bilhões em dois anos.

Para Pollyana Mustaro, especialista em tecnologia e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a plataforma tende a ter sucesso no País, sobretudo, com as gerações mais conectadas. “Elas têm em sua essência uma espécie de ‘nomadismo’ e não querem mais trabalhar em uma única empresa a vida toda. Com as mudanças de trabalho, ocorrem também as de moradia. O sonho da casa própria não é mais algo significativo”, afirma.

Tecnologia em foco

Outro tema que ronda o setor imobiliário é a questão de casas e apartamentos inteligentes. Os lares, de fato, terão cada vez mais dispositivos de IoT (internet das coisas) integrados em diferentes ambientes e com funções distintas.

Ações que visam o conforto, relacionadas à iluminação e temperatura, vão andar lado a lado das que destacam a estética. “Telas em alta definição nas paredes, por exemplo, vão projetar quadros que sejam da preferência dos moradores ou dos visitantes, com a vantagem de poder mudar a figura quando quiser”, exemplifica Pollyana. “Também será possível controlar o estoque de alimentos, assim como a validade, e realizar, automaticamente, o pedido, pagamento e entrega de mercadorias.”

Alexandre Lafer Frankel também enxerga uma iminente revolução no setor, através de iniciativas e serviços acoplados aos empreendimentos. Eles, inclusive, estão no radar da Vitacon. Mas não vá pensando que serão ao estilo Jetsons. “A experiência e a solução são muito mais importantes do que simplesmente a automação. A conexão tem de ser natural”, afirma.

Como exemplo, o executivo destaca a conectividade de uma máquina de café com o provedor de cápsulas. A inteligência garantirá o abastecimento assim que as cápsulas chegarem ao fim. Da mesma forma, a limpeza de um apartamento, que pode ser solicitada de acordo com a quantidade de “entradas” no local.

Outra possibilidade é a integração com a mobilidade urbana, o que já ocorre em alguns empreendimentos da Vitacon. “Um morador, por exemplo, pode ter à disposição diferentes modais de transporte no prédio”, comenta.

No futuro, com tecnologias integradas a um aplicativo, o próprio app poderá entrar como tomador de decisão na hora de optar por um Uber convencional ou compartilhado, bicicleta, patinete ou metrô, levando em consideração as condições climáticas, a distância e o trânsito no momento.

“Será impressionante o salto quântico de tecnologia acoplada nessa nova leva de empreendimentos. Grande parte da base instalada ficará desatualizada. Vai ser difícil uma pessoa querer voltar a morar em um ativo que não tem toda essa tecnologia”, acrescenta.

“Eu vejo um desenvolvimento no mercado imobiliário nos próximos cinco e dez anos maior que os últimos 400.”

Os prédios da Vitacon já têm, hoje, parceria com startups de serviços, como Grin, Yellow, Dog Hero e Singu. “Queremos ampliar cada vez mais nossa atuação com esses parceiros. Essa nova cultura de ecossistema ajuda a fomentar mais negócios e expandir as oportunidades”, analisa.

Todas as tecnologias e serviços têm como objetivo central fortalecer a comunidade de moradores do grupo. Inclusive, os empreendimentos da Vitacon tornaram-se uma espécie de “rede neural”. Isso porque moradores podem usar as academias ou coworkings de outros prédios, a fim de otimizar o tempo. “A ideia é simplificar a vida das pessoas, mesmo.”

Espírito empreendedor

A tecnologia sempre esteve presente na vida de Frankel – mesmo que “escondida” entre tijolos e concretos. Seu primeiro negócio, aos 17 anos, não nega: uma startup de games. Anos depois, formou-se em engenharia civil. “Mas minha profissão é empreendedor”, vai logo avisando.

Com muita experiência na bagagem empreendedora, os acertos se sobrepuseram aos erros. Mesmo em um momento de instabilidade no País, a Vitacon não parou de crescer – graças aos acertos. “O segredo do avanço, sem dúvida, foi apostar em duas receitas fundamentais: cultura e gente”, acrescenta. “Além disso, começamos a investir antes de o mercado voltar.”

Enquanto o ano de 2017 encerrava uma série de oito quedas trimestrais consecutivas no mercado imobiliário paulistano – iniciada no primeiro trimestre de 2015 e que perdurou até o quarto trimestre de 2016 -, a Vitacon brindava o momento de recuperação com um valor geral de vendas (VGV) de R$ 830 milhões.

Já em 2018, o salto foi de R$ 1,2 bilhão em lançamentos. “A expectativa para este é de R$ 2,3 bilhões”, estima Frankel, sem colocar na conta o projeto que será o carro-chefe da empresa no futuro, a Housi.

Indo de encontro às expectativas de todas as construtoras do mercado, a Vitacon quer parar de vender imóveis até o ano que vem e focar na gestão das unidades da base da Housi. “Claro que as vendas, de uma forma geral, não vão acabar, mas, nós, em curto prazo, não venderemos mais. Nosso grande objetivo, agora, é prover a moradia on demand e revolucionar o mercado imobiliário”, afirma.

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