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Em entrevista à CWS Insights, Jean Sigrist, sócio e diretor da Neon, comenta sobre os planos da empresa, a aposta no microempreendedor individual e afirma que as transações digitais vão dominar o mercado em breve

Está cada vez mais comum realizar pagamentos e outras transações financeiras pelo smartphone. Tanto que o hábito de sair de casa portando cartões ou dinheiro pode ficar, de vez, no passado. E rápido. Pelo menos, essa é a aposta da Neon, uma das 697 fintechs brasileiras que tem atuado para levar o sistema financeiro para a tela do celular.

“Em pouco tempo, o smartphone será a nova carteira dos brasileiros. Essa é uma tendência irreversível”, diz Jean Sigrist, sócio e diretor da Neon.

A afirmação é baseada em números robustos da própria empresa, que comprova que as transações digitais tendem a dominar o mercado. Em dois anos, a fintech viu sua base de clientes ativos pular de 40 mil para dois milhões. Além do fato de o brasileiro estar mais conectado, a alta deve-se à popularização das fintechs.

Hoje, das onze startups que alcançaram o título de unicórnio (quando atingem valor de mercado superior a US$ 1 bilhão), seis atuam no mercado financeiro, entre elas a Nubank, a única delas com valor acima de US$ 10 bilhões. “A tecnologia causou uma disrupção grande na forma como as pessoas lidam com tudo na vida, e não foi diferente neste setor”, acrescenta o executivo, sobre a notoriedade das fintechs.

Na edição de junho de 2018 da IMF F&D Magazine, intitulada “The Future of Currency in a Digital World” (O futuro da moeda no mundo digital), a imagem representa o fim do papel-moeda, enquanto o celular, a nova carteira, como prevê o executivo da Neon. A evolução é representada pelas transações digitais. Imagem: International Monetary Fund (IMF)

Outro motivo que tem levado a Neon voar mais alto é seu portfólio, que já compete com os de bancos tradicionais. Atualmente, a empresa oferece cartão de crédito, transferência, pagamento de contas, consulta de saldo, saque (em caixas eletrônicos 24h) e depósito (via boleto), concorrendo também com grandes players do mercado digital, como Inter, Original e C6.

Uma nova “guerra”

Assim como ocorre com as empresas de maquininhas, que vivem uma competição acirrada, as fintechs que atuam como bancos digitais também têm uma guerra para chamar de sua.

Depois de atrair pessoas físicas para suas carteiras, incomodando os bancos tradicionais, agora elas estão entrando na briga pelo microempreendedor individual (MEI), pessoa jurídica (PJ) com faturamento de até R$ 81 mil por ano.

Elas, é claro, estão de olho na maior fatia de um mercado que cresce rapidamente. De acordo com o Portal do Empreendedor, só em 2019 surgiram cerca de um milhão de novos microempreendedores individuais. Ao todo, já são 9,031 milhões.

A missão desses bancos digitais, no entanto, é converter para sua base as mais de 23 milhões de pessoas que trabalham por conta própria sem registro. “É um mercado muito grande, de pessoas que muitas vezes não encontram o suporte que precisam nos bancos tradicionais”, justifica Sigrist.

E, nessa disputa, a Neon acaba de adquirir uma arma poderosa: o aplicativo MEI Fácil, que permite ao usuário pagar impostos, gerar notas fiscais e obter outras informações sem burocracia. No começo de 2019, o app divulgou que sua carteira de clientes já ultrapassava a marca de um milhão de usuários.

Segundo Sigrist, com a fusão, a empresa passou a ter dois milhões de clientes ativos, que, agora, têm acesso aos serviços prestados por ambas as companhias em um único aplicativo. “Vamos dar mais poder aos microempreendedores individuais”, afirma.

Na entrevista a seguir, Jean Sigrist comenta sobre os planos da fintech para 2020 e como a digitalização tem transformado o setor:

CWS: Mais da metade das transações bancárias no Brasil já são feitas digitalmente – 36% através de dispositivos móveis e 22% por Internet Banking, de acordo com a Febraban. Qual é a previsão da Neon para os próximos anos?

Jean Sigrist: Olhando o comportamento atual – e a evolução rápida desse mercado – a tendência é que superem as demais em pouco tempo. Na Neon, acompanhamos essa mudança. Com a aquisição da MEI Fácil, ultrapassamos a marca de nove milhões de downloads. Esse número cresce exponencialmente. Hoje, a empresa abre 25 mil contas por dia, sendo que nosso cliente acessa a conta basicamente pelo app. De fato, a carteira do brasileiro tende a ser o smartphone.

CWS: Como o sr. analisa as fintechs hoje? Elas são uma ameaça para os bancos tradicionais?

Jean Sigrist: Elas não vieram para acabar com os bancos. O mercado financeiro no Brasil é muito amplo, há espaço para empresas se especializarem em produtos e serviços diferentes. Mas uma vantagem das companhias que nasceram digitais é conseguir entender as necessidades do cliente e se adaptar a elas de maneira muito rápida, colocando o consumidor sempre no centro da operação.

Jean Sigrist, da Neon: “Temos crescido de forma acelerada, no entanto, estamos só começando nossa jornada”. Foto: divulgação

CWS: O que, de fato, mudou na experiência do cliente com as fintechs?

Jean Sigrist: Quando a agência foi para o celular abriu-se uma gama de alternativas. Tudo ficou mais fácil e menos burocrático. O cliente chega a uma fintech porque escolheu estar nela, se identificou com sua proposta ou gostou de como é atendido, por exemplo. Nesse cenário, acredito que as agências bancárias não continuarão a existir como hoje e haverá redução.

CWS: Em um mercado competitivo e cada vez mais dominado por novas entrantes, há espaço para todas crescerem?

Jean Sigrist: Acreditamos que há muito espaço para ser ocupado no mercado brasileiro, com produtos feitos para atender à necessidade do cliente. Nós, por exemplo, temos crescido de forma acelerada, no entanto, estamos só começando nossa jornada.

CWS: De uma forma geral, qual é a “pedra no sapato” das fintechs atualmente?

Jean Sigrist: Uma dificuldade é a capacidade de atrair e reter talentos em um mercado cada vez mais competitivo nessa arena. O fator humano é provavelmente, ao mesmo tempo, o maior ativo e o maior desafio das fintechs.

CWS: E quanto aos desafios da Neon?

Jean Sigrist: Os maiores são de gestão e de cultura. O número de funcionários da Neon saltou de 200 para mais de 600 em 2019. Poucas empresas no Brasil crescem tão rapidamente. O nosso grande desafio é gerenciar esse crescimento exponencial, mantendo a essência que deu origem à empresa e construindo uma cultura sólida.

CWS: O recente aporte (de R$ 400 milhões, liderado pelo Banco Votorantim e pelo fundo General Atlantic) irá ser empregado em quais áreas?

Jean Sigrist: O capital será injetado para acelerar o crescimento da Neon e aumentar a densidade da marca nas capitais fora do eixo Rio-São Paulo, além de campanhas publicitárias, tecnologia e contratação de talentos. Será utilizado também na ampliação da oferta de produtos, incluindo o desenvolvimento de modalidades de crédito e alternativas de investimentos aos clientes. Tudo para redesenhar a experiência financeira das pessoas, tornando a gestão de seu dinheiro mais simples e eficiente.

CWS: Tratando-se dos microempreendedores individuais, como pretendem gerar valor para esse público?

Jean Sigrist: A união da Neon com a MEI Fácil tem potencial de gerar um grande impacto social. Através da fusão, eles terão acesso à geração de boletos, maquininha de cartão em parceria com outras empresas e conta digital.

CWS: Entrar na “guerra das maquininhas” está nos planos da Neon este ano?

Jean Sigrist: Por enquanto, não faz parte da nossa estratégia entrar nesse mercado.

CWS: Entre os serviços e soluções que têm movimentado este setor, o que podemos esperar de 2020?

Jean Sigrist: As soluções de produtos estarão muito pautadas na proposta de valor das fintechs em proverem uma experiência de sucesso aos clientes, afinal, eles continuarão no foco. Nesse contexto, deve haver, sem dúvida, uso cada vez maior de dados para tomadas de decisão.

(Matéria publicada em janeiro de 2020).

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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