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Conhecida como a Uber dos caminhões, a CargoX vem se sobressaindo no mercado nacional – com potencial, inclusive, para ser a próxima a figurar na disputada lista de unicórnios brasileiros. Em entrevista à CWS, o CEO Federico Vega fala dos desafios e dos reais benefícios da inovação no setor de logística

Formando em Economia com especialização em finanças pela Southampton, o argentino Federico Vega tinha tudo para ostentar uma carreira bem-sucedida no mercado financeiro. Porém, em seu íntimo, sempre soube que sua real vocação era empreender.

Até tentou tomar gosto pela profissão. Chegou a ocupar o cargo de vice-presidente de investimentos no banco JP Morgan, mas chegou à conclusão que precisava de um propósito maior: era hora de desenvolver algo disruptivo que fizesse a diferença na vida das pessoas.

“Pensando nisso, resolvi criar uma solução para um público que sempre chamou minha atenção: os caminhoneiros”, diz Vega. “Durante meus passeios de bicicleta, constantemente me deparava com eles e pude observar as dores deste setor.”

Desde o início, a tecnologia foi colocada no centro do business, como forma mais eficiente de solucionar questões do dia a dia desses profissionais, como, por exemplo, reduzir a ociosidade da frota e otimizar fretes.

Com isso em mente, Vega lançou em 2011 a primeira versão de seu software, que conecta motoristas de caminhões, pequenas transportadoras e empresas que necessitam de serviços logísticos. O modelo ficou conhecido como Uber dos caminhões, pela semelhança com a operação da gigante americana.

Do Chile para o Brasil

Naquele mesmo ano, sua solução venceu um concurso de startups em Santiago, no Chile. O prêmio de US$ 40 mil lhe deu mais fôlego para investir no negócio. No entanto, Vega vislumbrava ir além; movimentar um mercado que ansiava por mudanças significativas. Por que não, então, arriscar no maior país da América do Sul?

“Afinal, o Brasil é um país com muito potencial econômico em termos de logística e oportunidade”, relembra ele, ao contar o motivo de apostar neste mercado. “Existe espaço para redução de custos para o consumidor e a chance de oferecer melhores condições de trabalho para o caminhoneiro. Tudo por meio da tecnologia”, complementa.

Federico Vega, CEO da Cargox: sua plataforma garante mais lucro e economia para o caminhoneiro; para o cliente, menos custos. Foto: Marcelo Pereira/FOTOKA

Mas atravessar mais de três mil quilômetros para enraizar sua empresa em um terreno desconhecido exigia mais do que ele dispunha. Então, foi atrás de dinheiro. Para conseguir trazer sua operação para o País, ele usou de sua influência no mercado financeiro para arrecadar US$ 49 milhões com fundos e investidores. Seu modelo de negócio chamou a atenção do cofundador da Uber, Oscar Salazar, que passou a integrar a lista de investidores.

Enfim, nascia oficialmente a CargoX. De lá para cá, a empresa passou por cinco rodadas de investimentos, amealhando US$ 96 milhões – parte desse montante, inclusive, veio do megainvestidor George Soros, um dos homens mais ricos do mundo.

Em 2017, a companhia alcançou R$ 150 milhões de faturamento e figurou entre as 20 maiores empresas de transporte do Brasil. Já no ano seguinte, a estimativa era alcançar R$ 600 milhões de lucro – número que não foi confirmado pelo empreendedor, que também não revelou a meta de 2019.

Mas, ao que tudo indica, o avanço pode ser maior do que o imaginado. Logo no início deste ano, um estudo da Distrito em parceria com a KPMG apontou a CargoX como um dos próximos unicórnios brasileiros – jargão que refere-se à startups que alcançam US$ 1 bilhão em valor de mercado.

Se o título vier de fato, colocará o negócio de Vega em outro patamar financeiro, mas para o empreendedor, o mais importante é o fato de lançar luz sobre os problemas deste setor. “Se tornar um unicórnio é válido para atrair mais visibilidade à causa dos caminhoneiros no Brasil e, assim, fomentar ações que ajudem a resolver os desafios nas estradas”, afirma.

Para o Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo (SETCESP), os ganhos promovidos pela tecnologia vão muito além dos financeiros. “Plataformas para aproveitamento de ociosidade dos caminhões são incríveis, pois, dessa maneira, há menos poluição e maior fluidez no trânsito. É melhor para a sociedade”, opina Tayguara Helou, presidente do SETCESP.

A solução na prática

Por meio de tecnologia embarcada em aplicativo, a CargoX conecta 250 mil caminhoneiros, que atendem cerca de cinco mil clientes, entre eles Unilever, Ambev e Votorantim. O potencial da companhia é gigantesco, uma vez que o Brasil conta com uma frota de 2,5 milhões, dos quais um milhão são operados por caminhoneiros autônomos.

O carioca Manuel Valinha é um deles. “Antigamente, tínhamos que ir pessoalmente atrás de frete e enfrentar filas nas empresas de transporte. Hoje, com os aplicativos, não existe mais essa necessidade. Tudo é resolvido em poucos cliques”, comenta.

No caso da CargoX, o segredo por trás de tanta facilidade está nas tecnologias Machine Learning e Inteligência Artificial. “Elas são usadas para o cruzamento de informações entre fretes e caminhoneiros disponíveis, informações de carga e comunicação”, diz Federico Vega.

Operando em todo o País, o empreendedor estima que a economia anual para o caminhoneiro que usa pode chegar a R$ 14 mil por caminhão. Isso por conta da parceria da empresa com marcas consagradas neste mercado, como Dpaschoal, Graal e Rede Siga Bem, do Grupo BR. “Caminhoneiros autônomos e pequenos frotistas, ainda, chegam a lucrar 40% mais dirigindo pela CargoX”, afirma.

Mas na balança todos ganham. Do outro lado da ponta, clientes podem desembolsar 30% menos. Com tantos benefícios, Vega acredita que ações mais tecnológicas vão ficar ainda mais presentes no cotidiano dos brasileiros.

“Há, sem dúvida, uma maior abertura para a inovação no mundo corporativo. Não é possível deixar de perceber que isso faz parte de um movimento global que tem repercutido de maneira muito positiva”, diz Federico Vega.

A concorrência, no entanto, não tira o sono do empreendedor argentino. Pelo contrário. “Os novos atores desse setor ajudam na prestação cada vez melhor de serviços para caminhoneiros e empresas, além da criação de novas soluções tecnológicas”, opina.

Questionado se pretende levar a operação para outros países da América do Sul, Vega descarta essa possibilidade. Pelo menos por enquanto. “O Brasil é o terceiro maior mercado de logística do mundo, atrás somente da China e dos Estados Unidos. Temos muito potencial para explorar nacionalmente ainda até a expansão para outros territórios. A meta para os próximos anos é aumentar nossa capilaridade no País”, finaliza.

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Redação Autor

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