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Enquanto o Watson, sua plataforma de inteligência artificial se consolida em companhias ao redor do planeta, a gigante de tecnologia já caminha rumo à próxima aposta neste mercado: os computadores quânticos

A centenária IBM, também conhecida pela alcunha de Big Blue, dispõe de um portfólio amplo tratando-se de tecnologia e computação. No Brasil, no entanto, quando escutamos seu nome atualmente, automaticamente pensamos em sua inteligência artificial (IA), a plataforma Watson, uma das principais ferramentas hoje no mundo corporativo.

E não é para menos. O Watson – nome em referência ao fundador da IBM, Thomas John Watson (1874 – 1956) – está integrado na operação das principais companhias brasileiras, entre elas Bradesco, que usa a IA para interação com clientes finais; Fleury, que criou um teste para validar o perfil genético tumoral, com base no sequenciamento de 72 genes relacionados a diferentes tipos de tumores; Saint Paul, com sua plataforma de ensino à distância; entre tantas outras que fica difícil até de contabilizar.

“Não conseguimos estimar o número exato de empresas porque qualquer uma, independentemente do tamanho, pode utilizar o cloud ou o Watson, inclusive de forma gratuita”, diz Roberto Celestino, líder de vendas de Watson no Brasil. “No País, posso afirmar que todos os setores já utilizam.”

Enquanto o Watson ganha tração, outras soluções da IBM tendem a obter mais robustez por aqui. Até dezembro de 2020, o estado de São Paulo ganhará a primeira IBM Cloud (Multizone Region) da América Latina, como forma de ampliação de sua plataforma de computação em nuvem.

Roberto Celestino, líder de vendas de Watson no Brasil: “A inteligência artificial será a nova rede elétrica”. Foto: divulgação

Sem ter ainda uma cidade definida, a nova região será projetada para fornecer aos clientes um conjunto consistente de serviços em nuvem pública IBM. Com isso, um portfólio completo poderá ser contratado, entre eles mais recursos de IBM Watson, blockchain, IoT (internet das coisas) e analytics.

“As empresas estão transferindo mais aplicações de negócios para a nuvem, buscando melhorar a eficiência e manter a segurança enquanto gerenciam dados, serviços e fluxos de trabalho em um ambiente híbrido e multicloud”, diz Ana Paula Assis, gerente geral da IBM América Latina.

Inteligência artificial: a nova eletricidade

Se já é cada vez mais comum nos depararmos com companhias que usam IA, o aumento tende a ser ainda mais surpreendente. “Não conheço uma empresa que não esteja trabalhando com inteligência artificial. Ela será a nova rede elétrica, isso quer dizer que você usará sem perceber, assim como acontece com a eletricidade”, explica Celestino.

Um recente levantamento da consultoria francesa Capgemini comprova o crescimento da IA, especificamente, no setor varejista. De acordo com a análise, mais de um em cada quatro varejistas vêm implementando a tecnologia em suas organizações.

Uma das razões do sucesso é sua versatilidade, uma vez que pode ser aplicada em situações diferentes, como previsibilidade de demanda e até desenvolvimento de produto. O Boticário, inclusive, usa a inteligência artificial da IBM em ambas as formas. Tratando-se de logística e sazonalidade, a empresa de cosméticos necessita de um planejamento adequado para não perder vendas.

“Dentro desse planejamento, precisam se preparar, muitas vezes, com até seis meses de antecedência. Essa previsibilidade de demanda de médio prazo é um desafio para eles”, diz Celestino. “Com a ajuda da IA, utilizamos dados internos e externos, como PIB, taxa de desemprego, entre outros, que acabam impactando significativamente a demanda de produtos. Melhoramos a precisão dessas previsões em 20%, o que, para este setor, é um número bem expressivo.”

No caso de desenvolvimento de produtos, a inteligência artificial foi usada para elaborar novas fragrâncias. A tecnologia analisou fórmulas e sugeriu novas combinações. O processo convencional para criar uma nova fragrância pode durar até três anos, em contrapartida, com a IA, o tempo foi reduzido para seis meses. “Tudo que visa melhorar processos e entregar uma experiência diferenciada, passará pela inteligência artificial”, acrescenta o executivo.

Sem digitalização, não há salvação

E quando o assunto é mais abrangente tratando-se de tecnologia, Celestino acredita que companhias que não se transformam digitalmente estão saindo, aos poucos, do mercado. “Elas podem até continuar ativas, mas vão perder seu espaço.”

O executivo acrescenta que a inteligência artificial é apenas parte de um projeto de transformação digital, e que é necessário ir além dela para obter resultados significativos.

“De uma forma geral, transformação digital refere-se a uma operação mais eficiente e segura, e, consequentemente, uma experiência melhor aos clientes. Todo esse processo irá gerar novas receitas, reduzir custos, enfim, são inúmeras vantagens e benefícios que podem ser extraídos com o digital.”

Mesmo com a economia brasileira avançando timidamente (a estimativa é crescer menos de 1% em 2019), grande parte das empresas tem investido na transformação digital. O setor de tecnologia passa longe de crises exatamente porque, em momentos de instabilidade, ela representa novos negócios para companhias.

“Todo processo de crise exige uma movimentação da empresa para sobreviver e elas estão relacionadas com geração de novas receitas e redução de custos. A tecnologia vem exatamente para auxiliar nesses dois pontos”, afirma. “Em momentos de estagnação, é preciso pensar como a tecnologia pode ajudar sua empresa a dar o próximo passo, sair dessa situação e ganhar benefícios.”

O executivo acredita, sobretudo, que a inovação e a adaptação, nos dias de hoje, são imprescindíveis para qualquer negócio. “Não pedimos mais comida ou táxi como antigamente, agora é tudo pelo smartphone. Inovação é isso: é a capacidade de você estar apto a se transformar e acompanhar as mudanças que estão acontecendo ao seu redor”, diz.

Uma nova onda tecnológica se aproxima. E a IBM também quer surfá-la

Além da inteligência artificial, a companhia tem prestado atenção em uma outra tecnologia que deverá se popularizar daqui a alguns anos. “A próxima que irá transformar o mundo será a computação quântica, mas ela vai demorar entre dez e vinte anos para atingir sua maturidade”, estima Celestino. A empresa lançou este ano o IBM Q System One, o primeiro computador quântico para fins comerciais e uso científico.

A IBM, assim como outras empresas, entre elas Google e Samsung, vem investindo há anos nesta tecnologia. O mercado é tão promissor que a consultoria BCG prevê movimentação de US$ 50 bilhões até 2030.

Mas, afinal, como esses computadores irão impactar nossas vidas? Para responder essa e outras perguntas, a CWS entrevistou Jair Antunes, líder de computação quântica da Accenture para América Latina:

CWS: Como funcionará os computadores quânticos? Em que ano eles terão alcançado a maturidade?

Jair Antunes: Estima-se que daqui a três ou cinco anos já teremos computadores com escala e disponibilidade suficiente para começar a causar impactos significativos nas nossas vidas. Os computadores atuais são parte de nossas vidas e conseguem resolver tantas questões que, em geral, não paramos para pensar no que eles não conseguem resolver.

Problemas que tomamos como relativamente triviais, como, por exemplo, o cálculo da melhor rota para sair de sua casa e ir ao trabalho, hoje ele só consegue ser resolvido através de diversas restrições e concessões que, no máximo, garantem uma rota razoável. Os computadores quânticos provocam uma mudança de paradigma. Este novo paradigma vai conseguir resolver várias categorias de problemas desta natureza, por exemplo.

Outro problema que os computadores atuais não conseguem resolver é a simulação de moléculas, já que se comportam de acordo com a mecânica quântica – a simulação das moléculas com dezenas de átomos já se mostrou inviável.

Na prática, vamos começar a ver reduções nos custos logísticos, desenvolvimento de novos medicamentos, aumento na eficiência na transmissão de energia através de supercondutores à temperatura ambiente e avanços no desenvolvimento de novos materiais, entre outros.

CWS: Por que eles são tão diferentes dos atuais?

Jair Antunes: A principal diferença é que a computação quântica utiliza efeitos da física quântica para realização dos cálculos ou operações. Esses efeitos fogem do senso comum e são eles que dão o poder a esta nova computação. Um desses efeitos é a superposição que descreve como uma partícula quântica pode estar em vários estados ao mesmo tempo.

Na prática, cria o que podemos chamar de paralelismo quântico: imagine-se na biblioteca do Congresso Americano com seus 16 milhões de livros e você precisa encontrar um livro que contenha em uma de suas páginas a seguinte frase: “a vida antes da computação quântica pode ser comparada à pré-história”.

Para encontrá-lo, você teria que abrir cada um deles procurando em cada página. Em média, você teria que abrir por volta de oito milhões de livros – como um computador clássico hoje precisa fazer. Já um computador quântico, com o efeito do paralelismo quântico, encontraria com grande probabilidade o livro depois de apenas quatro mil tentativas.

CWS: De que forma essa tecnologia estará presente num futuro próximo?

Jair Antunes: Teremos um aumento significativo do poder computacional que será utilizado por empresas para resolver os problemas mais complexos, abrindo as possibilidades para inovações disruptivas.

Várias empresas já estão se posicionando para suprir as necessidades do mercado. A Accenture, por exemplo, já pesquisa a integração com sistemas de gestão, logísticos e de produção já utilizados nas empresas. As eficiência e inovações serão percebidas pelos consumidores por meio de preços mais atraentes, mais qualidade e ofertas de novos serviços.

No longo prazo, a computação quântica deve permitir um conhecimento ainda mais profundo da mecânica quântica, abrindo possibilidades de uma aceleração do desenvolvimento tecnológico e científico. Isso deve promover transformações ainda mais profundas do que a computação clássica quando surgiu.

(Matéria publicada em outubro de 2019). 

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