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A terceira maior empresa de locação de veículos do Brasil vem investindo cada vez mais em sua atuação digital. Miguel Alcântara, diretor executivo de TI, comenta sobre as iniciativas da companhia e a importância desse tema para todos os setores

O mercado de locação de veículos no País não tem do que reclamar. Em 2018, as locadoras emplacaram 412.753 automóveis comerciais leves. A frota total das locadoras chegou a 826 mil veículos, um aumento de 16,5% em relação ao ano anterior. O número de locadoras também subiu: de 11.407 agências em 2017 para 13.182 em dezembro de 2018, uma alta de 15,5%, de acordo com dados da Abla (Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis).

O avanço é natural, uma vez que novas soluções de mobilidade têm feito parte da vida dos brasileiros, como aplicativos de transporte e locações pontuais. Num setor cuja a movimentação atingiu R$ 15,3 bilhões no ano passado, não demorou para chamar a atenção de players de peso, como as montadoras Toyota e Volkswagen, que já entraram nessa briga.

Mas, pelo menos por enquanto, elas não estão entre as três maiores do setor. O pódio é protagonizado pela Localiza, Unidas e Movida, respectivamente nesta ordem. E se depender da visão desta última, ela tem tudo para subir de posição rapidamente através de suas estratégias digitais.

A empresa conta, há pouco mais de um ano e meio, com Miguel Alcântara no cargo de diretor executivo de TI. Vindo de grandes companhias nacionais, ele sempre promoveu a transformação digital através, como ele diz, “de um olhar atento ao que acontece ao redor e no mundo”.

E foi observando o que vem acontecendo no País, sobretudo, as mudanças na forma de mobilidade, que a Movida, em meados de 2017, começou a adaptar o seu modelo de negócio à era digital, especificamente, para a tela do celular. Entre as empresas de locação, ela foi a pioneira a disponibilizar aplicativo para todos os sistemas operacionais e a oferecer descontos dentro da plataforma.

A aposta neste cenário surpreende e, hoje, dois anos depois, já representa o principal canal de locação de veículos da companhia. Entre o primeiro trimestre de 2017 e o segundo trimestre de 2019, as locações pelo app multiplicaram 2,85 vezes. “Hoje, nosso principal canal de aluguel é o aplicativo: 60% das locações são feitas pelo smartphone”, revela Miguel Alcântara.

Para fomentar o uso do aplicativo, há opções diferenciadas de planos, entre eles pré-pagos e mensais, automóveis 0km e modelos exclusivos disponíveis apenas pelo app. As locações por meios digitais também contam com o apoio de parceiros como CVC, Decolar e ViajaNet.

“Incentivamos nossos clientes a usarem o método digital porque é mais rápido e fácil. Na loja, o processo é mais burocratizado; enquanto no app, o usuário já envia fotos e documentos, reduzindo muito o tempo de retirada do veículo na loja”, diz o executivo.

Movida acelera na transformação digital

Miguel Alcântara, da Movida: “Estamos trabalhando para digitalizar toda a experiência dos nossos usuários”. Foto: divulgação

O sistema QR Code também é aliado do processo de retirada. Através do código gerado pelo aplicativo, o cliente faz a leitura em um totem ou câmera instalada na loja, agilizando ainda mais o acesso ao veículo.

Outra forma que garante mais rapidez é o reconhecimento facial. O método tem sido usado em larga escala nas lojas da rede: entre cinco e seis mil verificações são feitas diariamente. O número expressivo representa os anseios do novo consumidor. “Cada vez menos, as pessoas querem fazer o cadastro do zero na loja, conversar com um consultor e passar pelas formas mais burocráticas”, diz.

“Nossa ideia é que, num futuro próximo, não haja necessidade de interface humana. Queremos que nosso cliente pegue o carro e vá embora, sem passar por um atendente, e que faça a devolução da mesma maneira. Estamos trabalhando para digitalizar toda a experiência dos nossos usuários”, acrescenta.

A comunicação, igualmente, está mais digitalizada. A Movida foi a pioneira neste mercado a realizar reservas através do WhatsApp. Hoje, além do aplicativo de mensagens, também interage com seus clientes pelo Messenger, canal de conversa do Facebook, e conta com o apoio de bots.

“Para 2020, vamos intensificar nossa interação por esses canais com mais modelos de conversação, tanto para clientes do rent a car (locação) como para quem quer comprar um veículo com a Movida”, adianta Alcântara, que trabalha com startups para implementar essas ações com mais efetividade. “Elas estão cheia de ideias e gás”, justifica.

Cultura é fundamental

A transformação da Movida, no entanto, começou de dentro para fora. “Empoderamos nossas equipes, implementamos modelos ágeis e integramos os setores. Todos os funcionários passaram por essa adaptação, o que ajudou a acelerar o processo de transformação digital como um todo”, explica Alcântara.

“Além disso, em vez de demorarmos anos em um projeto, os dividimos em blocos, como forma de agilizar o processo. Todos os dias entregamos algo novo para o negócio, o que nos deu uma nova dinâmica.”

Em sua visão, transformação digital vai além da tecnologia em si. “É claro que ela é necessária para construir plataformas e aprimorar a experiência do cliente. Se as empresas, independentemente do mercado, não aderirem à digitalização, inevitavelmente vão morrer, mas o conceito digital também é aplicado na forma como as pessoas interagem dentro da organização, o que dá mais velocidade para um novo projeto”, opina.

Como exemplo de agilidade, o executivo relembrou de uma conversa, que ocorreu há poucos meses, entre um diretor da Movida e profissionais da empresa de sistema de pagamento eletrônico Sem Parar. Dois meses após o encontro, toda a frota já estava equipada com o sistema de pedágio automático. “Fizemos a implementação rapidamente porque há essa proximidade e integração com todas as equipes”, afirma.

Aplicativos de transporte e venda de seminovos

Outro mercado que tem movimentado as locadoras de veículos é o de aplicativos de transporte. De acordo com dados da Abla, um em cada quatro motoristas de aplicativo aluga o veículo. Isso porque motoristas autônomos de empresas como Uber, 99 e Cabify conseguem preços diferenciados na maioria das companhias de locação.

Dentro da área de rent a car da Movida, esse público representa cerca de 20% do negócio. Mas ela quer conquistar uma parcela ainda maior. “Para isso, estamos construindo uma interface mais eletrônica para os motoristas de transporte, a fim de oferecer uma melhor gestão financeira, benefícios e atendimento mais digital”, comenta Alcântara, sem entrar em mais detalhes.

No entanto, para o economista Raphael Galante, o “boom” de motoristas autônomos tende a cessar em breve. “A demanda só existe devido a massa de desempregados. O processo de locação vai até o momento que a economia se recuperar totalmente. Não dá para estipularmos um prazo, com tantas reformas em andamento, mas provavelmente entre 2021 e 2022 o mercado vai virar essa chave”, prevê.

Mas, mesmo se essa onda passar, a Movida ainda tem uma nova para surfar: a de seminovos. Segundo dados apresentados na quarta-feira, dia 6 de novembro de 2019, as vendas de veículos seminovos atingiram mais de 43 mil carros nos nove meses de 2019, um volume 69% maior que o mesmo período de 2018.

O avanço neste segmento ajudou a melhorar a receita bruta da companhia, que ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão, alta de 54%. Outro dado importante refere-se às suas ações. Desde que abriu capital na B3, em 2017, mesmo período que intensificou a estratégia digital, suas ações valorizaram mais de 100%.

“A junção de todas as iniciativas, tanto as digitais como as de veículos e serviços diferenciados, fez com que a Movida saísse de 2013 com uma frota de dois mil carros para 110 mil hoje. Soma-se a isso, o fato de as pessoas estarem alugando mais veículos. Carro se tornou um serviço”, comenta Alcântara, que também é usuário de automóvel alugado, mas mantém um próprio na garagem.

Foco no cliente (e em outras tecnologias)

Todas as iniciativas digitais da Movida, até aqui, foram implementadas com foco no cliente, afinal, para o executivo, o digital ajuda na fidelização. Mas é preciso usar as ferramentas de forma correta.

“Temos feito muitos tratamentos de dados para saber quem são nossos clientes e criar modelos direcionados. Oferecendo benefícios, o cliente, certamente, voltará a usar os serviços”, diz. “Estamos aperfeiçoando nossa plataforma para ficar 100% com foco no cliente. Nos próximos dois anos, esse negócio (digital) terá uma ruptura tremenda.”

Além da tecnologia big data, a Movida usa inteligência artificial para precificação, dependendo da oferta e da demanda de determinadas regiões, lojas, dias e horários. O machine learning entra para fazer sugestão de modelos de acordo com o perfil e as preferências do usuário.

“Nossa frota também é monitorada através da IoT (internet das coisas), onde coletamos todas as informações dos carros e sua localização. Em breve, à medida que os carros estiverem voltando para as lojas, os vendedores serão informados, via notificação no celular ou tablet, para acelerar o processo de devolução. Sem os algoritmos não conseguiríamos oferecer esse tipo de tratamento”, diz o executivo.

Questionado sobre como a Movida está posicionada no mercado hoje, Miguel Alcântara é direto. “Se perguntar ao nosso CEO (Renato Franklin), ele dirá que somos uma empresa de tecnologia que aluga carros. Mas, na minha visão, somos uma empresa que soluciona problemas de mobilidade. O que nos move para frente é olhar o negócio como uma solução de mobilidade como um todo. Não buscamos ser a maior na nossa área, mas, sim, a melhor todos os dias”, afirma. Se depender das iniciativas, a Movida está no caminho certo.

(Matéria publicada em novembro de 2019). 

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