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Na contramão das principais empresas de adquirência, a holandesa Adyen nasceu digital e, agora, quer ganhar os balcões com suas maquininhas. Saiba por que o novo produto poderá ofuscar players nacionais

O nome Adyen pode até não soar familiar, mas, provavelmente, você já usou sua tecnologia e nem sabe. Atuando no processamento de pagamentos desde 2006, a empresa holandesa tem em sua carteira de clientes nomes como Uber, Cabify, Netflix e Facebook.

No Brasil, onde opera há oito anos, ela tem feito parte da vida de mais de 50 milhões de brasileiros por estar presente nos sistemas de companhias como iFood, Magazine Luiza, Dafiti e Amaro.

A força da empresa é tamanha que, em junho de 2018, surpreendeu o mercado em sua bem-sucedida estreia na Bolsa de Valores de Amsterdã, com os papéis dobrando de valor já no dia seguinte. Na ocasião, a empresa comandada por Pieter van der Does estava avaliada em € 7,1 bilhões. Menos de um ano depois, atingiu valor de mercado de € 19,8 bilhões.

Mas, agora, seu nome tende a ficar mais popular, já que suas soluções estarão visíveis aos olhos do consumidor. Como plano de expansão global, a companhia lançou sua própria maquininha para processar pagamentos, o que promete sacudir ainda mais o mercado físico de adquirência – sobretudo, no Brasil, onde o setor vive dias conturbados, com a acirrada disputa entre players como Stone, Cielo, Rede e PagSeguro.

Porém, diferentemente deles, que travaram estratégias agressivas para captar varejistas, a Adyen não vai competir com taxas baixíssimas nem sair distribuindo seus terminais a preços irrisórios. O diferencial do produto está na integração de todos os canais de venda através de uma plataforma unificada, como forma de simplificar a rotina de comerciantes e garantir uma melhor experiência de compra para os clientes.

“Ao contrário das adquirentes associadas a grandes bancos, que começaram a operar no mundo físico e tiveram que se adaptar ao e-commerce, nascemos no digital e, só depois, levamos nossa plataforma também para as lojas. Isso dá ao varejista acesso a todos os dados de vendas e pagamentos dos diversos canais em um mesmo local”,  diz Túlio Gambogi, head de adquirência e produtos da Adyen para a América Latina.

A solução na prática

Através da estratégia de comércio unificado (ou unified commerce), ao integrar os canais físico e online em uma mesma nuvem, o varejista conseguirá ter mais controle e analisar dados em tempo real, como etapas da jornada de pagamento, e ficar a par das preferências de cada cliente.

A integração possibilitará, ainda, estratégias para atrair o consumidor omnichannel, como comprar online e retirar na loja física ou adquirir em um ponto físico e receber em casa, e comprar no e-commerce e trocar o produto na loja, com a vantagem de não precisar de novos cadastros.

Túlio Gambogi, da Adyen no Brasil: “Nosso trabalho é tornar o momento do pagamento invisível”. Foto: divulgação

A Amaro é a primeira a aderir a solução. Assim como a companhia holandesa, a marca de roupas brasileira nasceu online e ampliou sua atuação para o mundo offline posteriormente, através de guide shops – mas sempre focando no “mobile first”, operação 100% virtual.

Hoje, já são 15 pontos físicos em capitais brasileiras que servem como showroom: o cliente experimenta a roupa e faz o pedido através de dispositivos conectados ao e-commerce disponíveis na loja. O item é enviado para o endereço cadastrado pelo comprador.

Com a adesão das maquininhas, todo o sistema de pagamentos da Amaro se integra à plataforma. Os clientes da marca que já compraram em um dos canais (físico ou online) têm a opção de salvar os dados do cartão. Assim, quando forem a uma loja física, podem pagar sem tirá-lo do bolso; o mesmo acontece inversamente, no e-commerce. Procurada para opinar sobre o novo sistema, a Amaro não concedeu entrevista.

“Nosso trabalho é tornar o momento do pagamento invisível, como quando você usa um aplicativo de transporte e a conta vai direto para o cartão, ou quando você vai a uma loja da Amaro e nem precisa levar sua carteira, porque seus dados já estão salvos, com toda segurança”, resume Túlio.

As mudanças no varejo são fundamentais para atender as atuais e as próximas gerações de consumidores. Uma pesquisa da Adyen, que analisou o comportamento de compra das gerações Z (entre 18 e 23 anos) e Y (entre 24 e 38 anos) em 12 países, incluindo o Brasil, mostra que eles têm em comum a exigência por conveniência na hora das compras: sete entre dez já desistiram de adquirir um produto em uma loja física por conta da fila.

Apesar de os pagamentos com cartões por aproximação no terminal representarem ainda 9% da preferência de ambas as gerações – enquanto as carteiras digitais, 7% -,  as maquininhas da Adyen já estão preparadas para o avanço desses tipos de transações, que podem garantir pagamentos até dez vezes mais rápidos do que em métodos convencionais, como dinheiro, cheques e cartões que necessitam de senha.

Em recente entrevista à CWS, João Pedro Paro, CEO da Mastercard no Brasil e Cone Sul, revelou que, entre 2017 e 2018, as transações sem contato pularam de 130 mil para 1,4 milhão.

“As maquininhas já vêm com soluções como carteiras digitais (Apple Pay, Samsung Pay e Google Pay), pagamento por aproximação e serviço de antifraude baseado em análise cruzada de mais de 100 tipos de dados”, diz Túlio. “Por conta desses dados, já é possível reconhecer um comprador do e-commerce quando ele insere seu cartão no terminal da Adyen em uma loja física”, garante.

De ponta a ponta

Com a entrada do novo produto, a Adyen se torna a primeira adquirente no Brasil a oferecer uma plataforma de ponta a ponta (gateway, antifraude e adquirência). “O grande diferencial é que as maquininhas operam de forma integrada às automações comerciais, ou qualquer outro tipo de software, sem nenhuma dependência de TEF (sigla para Transação Eletrônica de Fundos)”, acrescenta.

Segundo Túlio, o que possibilita a independência do TEF é a API de terminais – conjunto de padrões de programação para aplicativo de software ou plataforma. Da mesma forma como o e-commerce funciona via APIs, os terminais também se conectam com a automação comercial por meio delas.

“Como tudo isso funciona na nuvem, não há necessidade de redes locais caras e muitas vezes ineficientes. Do ponto de vista técnico, a tecnologia proprietária proporciona uma integração simples e rápida.”

Para aderir ao terminal, não é necessário operar com a Adyen no ambiente digital, outra estratégia para turbinar a carteira de clientes. “Estamos em fase de negociação com players de diversos segmentos do varejo”, avisa ele, sem citar nomes.

“Nossa missão no mercado brasileiro é derrubar barreiras que atrapalhavam os varejistas brasileiros, que, há anos, anseiam por uma experiência de pagamento descomplicada e integrada. Do lado do comprador, eles querem ser reconhecidos independentemente dos canais de venda ou do local em que escolherem pagar”, afirma.

As maquininhas da Adyen podem ter destaque no mercado exatamente por apresentarem benefícios que vão além das taxas baixas, ofertadas por players tradicionais. De acordo com Diego Perez, diretor da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), oferecer a melhor taxa ou até mesmo zerá-las não é mais um diferencial.

“Ganhará espaço aquelas empresas que oferecerem serviços adicionais ao pagamento, como gestão financeira, smart POS e interconectividade com outros serviços essenciais para o varejo. Um novo entrante que tenha essa visão, certamente, conseguirá conquistar seu espaço, mesmo em um ambiente extremamente competitivo”, diz.

Comércio eletrônico

Apesar da chegada nos balcões, o e-commerce, principal mercado da Adyen, não foi deixado em segundo plano. A companhia já está apta para oferecer os serviços de 3DS 2.0 – novo padrão de autenticação no e-commerce lançado pelas bandeiras de cartões.

“Na prática, eles vão permitir o uso do débito no e-commerce, o que irá garantir uma melhor experiência do usuário, reduzir fraude e prevenir que os varejistas percam dinheiro com o chargeback”, afirma Túlio.

A nova opção de pagamento pode ajudar a alavancar ainda mais o comércio eletrônico brasileiro, que, mesmo antes do novo padrão, já enxergava crescimento de 16% nas vendas online este ano.

De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), até dezembro o faturamento do setor poderá chegar a R$ 79,9 bilhões, contra R$ 68 bilhões de 2018.

Números que têm impulsionado os varejistas a apostarem, cada vez mais, em iniciativas inovadoras e integradas. Em janeiro, durante a 110º edição do Retail’s Big Show, uma das principais feiras do setor varejista que ocorre anualmente nos Estados Unidos, Túlio se surpreendeu com a quantidade de brasileiros presentes no local.

“Estamos sempre em busca de promover uma revolução digital nos negócios. Mas confesso que estranhei o número de pessoas falando português por toda parte. Foi a segunda maior delegação presente no evento”, relembra.

Todo o entusiasmo do varejo brasileiro serviu de estímulo para a expansão dos serviços da Adyen no mercado doméstico, que, para Túlio, sempre sofreu com os meios de pagamentos.

“A grande concentração bancária e a dependência de tecnologias ultrapassadas em meios de pagamentos se somam à complexidade tributária brasileira tentando puxar o varejista brasileiro para baixo. Mas ele não se dá por vencido: quer sempre estar à frente, ser digital e ser o primeiro”, diz.

Se depender da Adyen, esse desgaste já é coisa do passado. “Nunca faltou desejo por inovação no varejo brasileiro. Faltava tecnologia de ponta. Agora, não falta mais”, afirma.

(Matéria publicada em julho de 2019).

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Redação Autor

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