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Projetos digitais também passam por altos e baixos e, muitas vezes, precisam ser repensados no meio do caminho. Para discorrer sobre o tema, convidamos o professor de estratégia do Insper, David Kallás, que afirma que a estrada para o sucesso está longe de ser linear

Em qualquer projeto, o esperado é manter o foco e os objetivos até o fim, mesmo diante das adversidades encontradas pelo caminho. Mas tratando-se de transformação digital, a estrada pode ser mais tortuosa do que o imaginado, uma vez que tudo muda em uma velocidade impressionante.

O projeto que está sendo estruturado hoje pode não ser relevante para o mercado amanhã – e o seu negócio precisa estar preparado para a mudança de rota. Nesse contexto, pode-se comparar o processo digital ao mesmo enfrentado pelas startups. Grande parte delas passa por “ajustes de percurso” quando necessário. “A comparação faz todo sentido”, diz David Kallás, professor de estratégia do Insper.

“Antes, você definia que estava no ponto A e queria ir para o ponto B, e o caminho era traçado. Porém, quando se fala de digitalização, o ponto B, na realidade, não é mais preciso. É muito comum que sejam feitas alterações de rota ao longo do tempo”, acrescenta.

Estrada pouco linear

Em um vídeo publicado pelo Laboratório de Inovação de Harvard, o executivo e investidor Michael Skok diz que o roadmap das startups não é linear e, quase sempre, elas precisam “pivotar” em seu percurso – ou seja, mudar de direção e testar novos caminhos para chegar ao destino esperado, o sucesso.

A jornada para a digitalização

O gráfico mostra a rota percorrida pelas startups. O que chama a atenção é a volatilidade na vida de uma nova entrante. A maioria delas precisa se adaptar a diferentes cenários e situações, e não raro recomeçar.

O mesmo pode acontecer com empresas já consolidadas no mercado, mas que estão se digitalizando. Para tornar o projeto escalável, há uma série de imprevistos ao longo da jornada. E isso, como apontou Kallás, é inevitável.

Todos os projeto ou modelos de negócio novos, principalmente os digitais, passam por testes e experimentações até chegar a uma solução que atenda o cliente e que seja escalável.

No entanto, companhias que persistem e atravessam todo o caminho até o final, consequentemente, têm mais potencial de crescimento e de se tornarem gigantes em seu campo de atuação. Vale lembrar que o Google já foi startup e, hoje, sua controladora, a Alphabet, já ultrapassa a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado.

Além de o processo ser longo, em grande parte das vezes requer investimento alto. Por isso, é necessário ter paciência e, sobretudo, saber até onde quer chegar. Para isso, é preciso percorrer três pontos fundamentais: proposta de valor, missão e visão.

Mais do que tê-los no papel, é necessário colocá-los no centro do projeto. “A proposta de valor é relacionada com frequência à questão da experiência ou jornada do cliente. Nesse ponto, identificamos as ‘dores’ do consumidor que devem ser resolvidas”, comenta Kallás.

Já a missão é fundamental para definir o negócio da organização e seu propósito; enquanto a visão representa um norte, até onde a empresa quer – e pode – chegar. “São pontos importantes que ajudam a dar mais foco e precisam, sim, ser percorridos durante a jornada.”

Por que projetos falham?

Análises da consultoria americana McKinsey apontam que 70% das transformações digitais falham de maneira recorrente. O número assustador é um reflexo, sobretudo, da falta de engajamento da organização, tanto dos funcionários como da liderança.

Quando há envolvimento das equipes na transformação digital, as probabilidades de êxito aumentam em 1,4 vezes; enquanto quando há o engajamento de líderes, configurando a mudança cultural, as chances saltam para 1,5 vezes.

Importante ressaltar que os executivos precisam ter a mentalidade de experimentação e ter ciência que nem todas as iniciativas que fazem parte de um projeto terão êxito. Por isso, se faz necessário proporcionar um ambiente que promova a agilidade e a inovação.

David Kallas

David Kallás, do Insper: “Tratando-se de digitalização, é muito comum que sejam feitas alterações de rota ao longo do tempo”.  Foto: divulgação

Ou seja, transformação digital exige mais do que investimento em tecnologias: é necessário investir na mudança da cultura organizacional, mexer no mindset da companhia e, sobretudo, não desistir quando o resultado projetado não é alcançado rapidamente.

Além disso, David Kallás acredita que a pressa pode contribuir para o fracasso de um projeto. “Um grande problema é ser ágil demais e querer usar todas as tecnologias de uma vez, sem alinhamento e testes prévios”, aponta.

“Outra coisa que acho interessante é a estratégia de ser ou não ser uma plataforma. Muitas empresas querem virar plataformas, mas não se dão conta de que, para se tornar uma de sucesso, é preciso escalar e ganhar muito volume. Além, é claro, de muito investimento.”

A falha também está em não olhar para o que tem movimentado o mundo hoje: o smartphone. “Ele é um item-chave. Sabemos que a maioria dos acessos à internet é pelo celular. Toda a estratégia de transformação digital deve começar por ele”, opina.

Em tempos de conectividade alta, todos os setores serão “puxados” para a era digital em algum momento. Portanto, é fundamental que as empresas invistam e, acima de tudo, reconheçam que o caminho é desafiador, mas só ele garantirá a sobrevivência do negócio no futuro. “Hoje, a ação rápida é fundamental”, conclui o professor.

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Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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