Um dos principais nomes do mercado financeiro brasileiro, José Roberto Securato comenta sobre o boom das fintechs, opina sobre as novas tecnologias no setor de pagamentos e o avanço das empresas digitais

Doutor em administração pela Universidade de São Paulo (USP), José Roberto Securato é o que podemos chamar de profissional multifacetado: já trabalhou em diretorias de bancos e corretoras, como consultor nas áreas de crédito, fundos de investimento, avaliação de empresas e gestão de risco, e, ainda, escreveu livros sobre o mercado financeiro – área em que atua por vocação e por paixão.

Hoje, é um dos professores mais respeitados da USP, PUC e FIA, e um dos nomes mais cotados para comentar sobre assuntos que envolvem o setor.

O mercado financeiro vive a maior transformação de sua história, impulsionada, principalmente, pelo setor de pagamentos, que vem apresentando novas soluções e produtos para facilitar a vida dos brasileiros. Nesse novo tempo digital, cada vez mais dominado por fintechs e startups, o que pensa um dos profissionais mais experientes do mercado?

“As plataformas financeiras têm fomentado a ampliação da bancarização dos brasileiros. Hoje, através das fintechs, ficou muito mais fácil abrir uma conta. O Brasil evoluiu e tem aproveitado para se beneficiar das inovações que surgem no mercado”, diz Securato, em entrevista à CWS Insights.

De acordo com dados do Banco Central, 14 milhões de brasileiros abriram, pela primeira vez, uma conta bancária no País em 2020. O número de brasileiros adultos com conta aberta passou de 86% para 96%. Entre os incentivos para a abertura, destacam-se novos produtos e serviços como Pix e Open Banking.

“De fato, são duas soluções que vão ao encontro da maior bancarização. Mas ainda vejo problemas de segurança que precisam ser acertados”, opina.

Mudanças disruptivas

Securato acompanhou de perto fases importantes na economia brasileira e no mercado de pagamentos, como o Milagre Econômico, a transição para o Real e, mais recentemente, a invasão das maquininhas de cartão, fintechs e criptomoedas. Este último meio de pagamento, inclusive, é bem visto pelo professor.

“Acredito, sim, nesse tipo de pagamento, mas tem que ser regulamentado. Acho muito justo que o BC tenha sua própria criptomoeda, mesmo porque é ele quem emite a moeda”, acrescenta ele, que tem aplicações em bitcoin. “Apesar de ser um pequeno investimento, ganhei dinheiro, sim. Foi um bom negócio.”

Questionado sobre as principais instituições financeiras atuais, que vêm dividindo espaço com as fintechs, Securato enxerga uma concorrência cada vez mais acirrada entre ambos os perfis de empresas, mas não vislumbra vida longa às novas entrantes. Para ele, os bancos tradicionais vão incorporar as fintechs que se destacarem – movimento parecido com as financeiras, na década de 1970.

“Acredito que, em alguns anos, os grandes bancos comprarão as maiores fintechs, como ocorreu com as financeiras, que ‘morreram’ quando foram adquiridas por grandes instituições”, opina. “As fintechs não representam uma ameaça para os bancos”, acrescenta.

Leia a entrevista completa com José Roberto Securato:
CWS Insights: Como o sr. avalia o mercado financeiro atual com a chegada de novas soluções e de plataformas de pagamento?

José Roberto Securato: O primeiro ponto importante das plataformas financeiras é a possibilidade de ampliar a bancarização dos brasileiros. Ficou muito mais fácil ter uma conta corrente, por exemplo.

Outra vantagem das operações financeiras via celular são os descontos em compras. Isso ocorreu comigo recentemente, em uma compra de R$ 330. A pandemia acelerou a criação de novos produtos e serviços, seja através de fintechs ou bancos tradicionais. Ninguém mais usa dinheiro em espécie. Está tudo mais digitalizado.

CWS Insights: Com a digitalização de diferentes setores, o Brasil evoluiu muito em pouco tempo, sobretudo, tratando-se de novos negócios. Como era ser empreendedor nos anos 1970 e como é agora?

José Roberto Securato: O País evoluiu, pois a informação no mundo chega mais rapidamente e, com isso, o Brasil aproveita as inovações que aparecem. Assim, os empreendedores de hoje, comparado à década de 1970, têm muito mais informação disponível, o que facilita o empreendedorismo, principalmente, a reproduzir o que já existe em outros países.

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José Roberto Securato: "A pandemia acelerou a criação de novos produtos e serviços, seja através de fintechs ou bancos tradicionais. Ninguém mais usa dinheiro em espécie. Está tudo mais digitalizado". Foto: divulgação

Na década de 1970, era preciso viajar, visitar feiras e eventos para conhecer inovações. Empreender, no entanto, sempre foi e continua sendo desafiador, pois o ambiente é competitivo sempre. Mas, no meu ponto de vista, empreender é muito mais uma característica da pessoa, que se junta a uma oportunidade do momento. A concorrência entre empreendedores sempre é equivalente, não interesse a época.

CWS Insights: E quanto aos estudantes: hoje, um recém-formado em administração ou economia tem mais oportunidades do que há 30 ou 40 anos? Quais habilidades são fundamentais hoje para se destacar no mercado profissional?

José Roberto Securato: Na década de 1970, muitas universidades foram abertas, mas, até aquele período, só existiam as tradicionais. Os formandos em administração e economia já entravam no mercado como engenheiros e tinham facilidade em arrumar emprego. O momento também foi marcado pelo Milagre Econômico Brasileiro, época em que o serviço público carecia de profissionais. Durante esse período, o PIB crescia 6% ao ano; hoje, o Brasil não cresce, em uma década, a um PIB de 2%.

As principais habilidades para se destacar no mercado profissional atual são ligadas ao domínio da informação e como usá-la. Domínio da informação é conhecer a informação e depois saber como aplicá-la. Porque não adianta você entender tudo de inteligência de mercado ou de inteligência artificial e não saber ler um software, um dado.

Se você não souber interpretar, você vira apenas um mero conhecedor de cinco centímetros de cada coisa e não se aprofunda em nada. Nesse ponto, os profissionais que trabalham em grandes economias estão sempre à frente. Então, ao comparar o Brasil com o resto do mundo, é claro que vai ser muito difícil ter um Nobel em física, química, saúde ou qualquer coisa, porque os centros de pesquisa em inovação não estão aqui. Hoje, há mais concorrência do que no passado.

CWS Insights: Como o sr. analisa o Open Banking e o Pix?

José Roberto Securato: São duas soluções que vão ao encontro da maior bancarização da população. Mas ainda vejo problemas de segurança que precisam ser acertados. O Open Banking vai abrir toda a informação, então tem que tomar cuidado com a informação pessoal. Todos os bancos e instituições financeiras vão ver tudo ao meu respeito e assim por diante. Pode ter problema de segurança ou vazamento de informação.

CWS Insights: As criptomoedas terão futuro por aqui?

José Roberto Securato: O Banco Central tem que regulamentar, sim, esse mercado. E acho muito justo que o BC tenha sua própria criptomoeda, mesmo porque é ele quem emite a moeda. Acredito nesse tipo de pagamento, acho que ele é possível, mas tem que ser regulamentado. Ou seja, tem que ter origem muito bem fixada.

Hoje, não existe mais doleiro e, quando tinha, o que acontecia? Meu dinheiro, que tinha origem, era misturado com dinheiro que não tinha origem. E, se nesse câmbio eu ganhasse dinheiro, como iria explicar para o Imposto de Renda? São os mesmos problemas da criptomoeda. Eu mesmo tenho uma pequena aplicação em bitcoin e ganhei dinheiro, sim. Foi um bom negócio, mas tem que ser regulamentado pelo BC.

CWS Insights: O Brasil ainda é um mercado pouco competitivo tratando-se de instituições financeiras. Apenas cinco dominam o mercado. Como essas novas tecnologias e soluções poderão afetar a hegemonia entre os bancos?

José Roberto Securato: Existem umas cinco instituições que dominam o mercado financeiro e várias fintechs atuando em diferentes segmentos, aumentando a concorrência, mas as grandes instituições já estão abrindo suas fintechs.

E acredito que, em alguns anos, os grandes bancos comprarão as maiores fintechs. Esse movimento é parecido com o que aconteceu no passado com as financeiras (empresas que ganharam força na década de 1970, financiando produtos e bens de consumo).

A financeira não oferecia outros serviços, era apenas o financiamento. Foram criadas um monte delas, que hoje já não existem mais, porque os bancos compraram. O banco holandês ABN-Amro comprou o Banco Real, que depois virou o Santander. O banco holandês era pequeno, mas tinha uma financeira, a Aymoré, que foi a maior financeira de carros durante anos no Brasil.

Acredito que o mesmo vai ocorrer com as fintechs. Na minha visão, por exemplo, ou o Nubank é comprado por um grande banco ou vai virar o sexto maior banco, ao se transformar em uma instituição como Bradesco e Itaú. Ele não pode continuar do jeito que está, pois já cresceu tudo o que tinha que crescer como uma fintech.

Mas são poucas fintechs que têm condições de se transformar em um banco tradicional. Os grandes bancos já estão montando suas fintechs e startups.

CWS Insights: Atualmente, as principais empresas nas Bolsas de Valores mundiais são digitais. No Brasil, esse movimento ainda não chegou. Em breve, o sr. acredita que veremos mais companhias digitais na Bolsa de Valores brasileira?

José Roberto Securato: Investidores sempre preferem empresas com boas perspectivas, sejam elas de ativo fixo ou digitais, ou seja, o investidor quer saber qual é a perspectiva dessa empresa. Um exemplo claro é a Petrobrás.

Daqui a 30 anos, a Petrobrás que existe hoje não vai existir mais. Ou ela muda ou vai acabar, porque o petróleo está destinado ao fim. Enquanto isso, você acha que vou investir na Petrobrás ou não? Provavelmente, sim.

CWS Insights: Stone, XP e Pagseguro são exemplos de empresas brasileiras que optaram por fazer seus respectivos IPOs nos Estados Unidos. Por que abrir capital fora? É uma tendência?

José Roberto Securato: Muitos brasileiros têm mandado dinheiro para fora. Nos Estados Unidos, a taxa de juros de dez anos está na faixa de 1,30% ao ano, o significa que o mercado tem muito dinheiro, porque se faltasse, a taxa iria subir. Lá fora, então, tem muito mais gente para comprar.

Investidor, na verdade, gosta de qualquer empresa que tenha perspectiva de ganhar dinheiro. Durante anos, a Amazon deu prejuízo, mas cria-se uma perspectiva diferente, então suas ações sempre subiram por conta da perspectiva que existia. O que é importante é a perspectiva de crescimento e de que vai ganhar dinheiro. Essa é a visão dos investidores e das empresas.