A dona das redes Casas Bahia e Pontofrio (agora Ponto) está muito bem munida para brigar com seus principais concorrentes, Magazine Luiza e B2W. Rodrigo Rodrigues, diretor de tecnologia da companhia, comenta sobre os investimentos e ações que poderão ajudar a empresa chegar à liderança

O ano de 2020 serviu para desengavetar projetos digitais que estavam em segundo plano, já que o período transformou totalmente a forma de consumo. Agora, mais do que nunca, as empresas precisam oferecer serviços e produtos relevantes, sobretudo, integrados, com o intuito de gerar uma boa experiência de compra.

Nessa briga pela maior fatia do mercado digital e pela retenção de consumidores, empresas varejistas como Magazine LuizaB2W e Via (que recentemente tirou o Varejo do nome, mudou seu logotipo e cores) têm reunido esforços para surpreender cada vez mais seus clientes através de experiências que englobam atendimento, prazo de entrega e serviços financeiros. Em tempos atuais, essa é a tríade do sucesso.

E é mirando tais pontos-chave que a Via, dona das marcas Casas BahiaPontofrio (agora apenas Ponto) e Extra.com, planeja assumir o posto de liderança no concorrido cenário digital. “Além de estarmos conectados com nossos clientes em todos os pontos de contato, contamos com novas soluções financeiras e logísticas”, destaca Rodrigo Rodrigues, diretor de tecnologia da Via.

O reforço vem para suprir a alta demanda no comércio online e a multicanalidade, que hoje é fundamental no varejo. “A pandemia acentuou uma característica do consumidor: ele descobriu que pode fazer suas compras da forma como quiser. Acreditamos que mais consumidores vão continuar comprando online”.

O carrinho de compras da Via

Como forma de fortalecer sua marca e, sobretudo, engajar seus clientes na internet, a Via tem se mostrado muito mais que uma empresa de varejo – por isso a mudança do nome -, apostando em aquisições que abrangem novos segmentos.

A começar pela carteira digital banQi, comprada em 2020. Com ela, os consumidores desbancarizados – aqueles que não têm conta em banco – podem fazer suas compras utilizando um carnê digital, enquanto a Via tem a chance de trazer para seus canais um público que já soma mais de 45 milhões de pessoas.

Celer, que funciona como uma plataforma de pagamentos e tem mais de 200 fintechs em sua carteira, também foi arrematada pelo grupo recentemente, como uma forma de oferecer mais serviços financeiros aos sellers que comercializam no marketplace da Via. Aquisições do mercado tech também complementam o portfólio da companhia.

A estratégia omnichannel abrange todas as marcas do grupo. Foto: Della Rocca

Outra compra valiosa para a marca diz respeito à logística, um dos principais gargalos no mercado digital. “No último ano, adquirimos a ASAP Log, especializada em entrega para e-commerce. Com a integração da tecnologia desta startup, reduzimos ainda mais o tempo de entrega dos produtos adquiridos através de nossos canais online das marcas Casas Bahia e Ponto e avançamos na criação de mini hubs dentro de lojas para maior alcance logístico com um custo de frete e prazos menores”, comenta o executivo.

Recentemente, a Via lançou o Envvias, uma plataforma de frete para lojistas parceiros. Através dela, a companhia planeja consolidar mais um caminho para reter e turbinar sua base de sellers, que já contabiliza mais de oito mil lojistas.

“Além de contar com a maior malha logística do Brasil e ser 15% mais barata que a maioria das tabelas de frete utilizadas, a novidade é a única solução para esse público para o transporte de produtos pesados”, comenta Rodrigues.

Dessa forma, a Via pode fazer a gestão logística desses lojistas, o acompanhamento das entregas, desde o armazenamento até o controle dos transportadores. “A solução ainda inclui seguro em casos de extravios, roubos e avarias, com garantia de ressarcimento”, explica.

Uma empresa 100% digital

Embora a Via tenha demorado mais para se digitalizar em comparação aos seus principais concorrentes – entre eles Magazine Luiza -, hoje ela já se considera uma companhia totalmente digital. “Revertemos o atraso”, garante Rodrigues. Por conta do atraso em aderir novas soluções, a nova direção, que assumiu a companhia em junho de 2019, já sabia o tamanho do desafio que viria pela frente.

Rodrigo Rodrigues, da Via: “Acreditamos que mais consumidores vão continuar comprando online”. Foto: divulgação

“Chegamos sabendo da necessidade de fazer uma das maiores reformulações já vistas no varejo brasileiro, de maneira ágil. Em um ano realizamos a maior transformação do varejo com consistência e sustentabilidade, uma transformação que, desde o início, buscou atender o consumidor em todas as frentes de atuação: na loja, no celular, em aplicativos. Uma verdadeira jornada de digitalização e inovação.”

Ao se tornar uma companhia digital e, principalmente, focada no cliente, a Via quase que dobrou sua base de usuários em seus canais digitais nesse período.

“Fomos de 8 milhões de usuários em nossos aplicativos para 15,5 milhões; enquanto nossa equipe de tecnologia de 900 pessoas para 1,4 mil. Já em representatividade no e-commerce, pulamos de 34% para 80%”, diz o executivo.

Segundo Rodrigues, agora a companhia está no processo de implementação de um onboard mais rápido, com uma melhor plataforma para os integradores com conectores de lojas online a marketplaces e ações promocionais.

“O marketplace é uma realidade sem volta para os varejistas online que buscam ter mais ofertas e crescer no e-commerce. Afinal, quanto mais lojistas estiverem vendendo nos nossos sites, maior será a variedade de produtos que poderemos oferecer para os nossos consumidores, inclusive em segmentos que tradicionalmente não vendemos nas nossas lojas físicas e que não temos estoque próprio, como por exemplo, nas categorias de casa e construção, instrumentos musicais, moda, pet, entre outras.”

Embora já atuassem com outros segmentos desde 2013, por meio do e-commerce do Extra, a partir de agora o foco está na expansão de suas três marcas, concomitantemente. “Queremos facilitar a entrada de novos lojistas e oferecer a eles todo nosso poder logístico”, diz.

Um novo modelo de vendas

Mesmo nas lojas físicas das redes Casas Bahia e Ponto, os vendedores apresentam aos clientes os produtos ofertados no canal online, inclusive no marketplace, ampliando as possibilidades de itens que podem ser adicionados na compra do consumidor – a tal prateleira infinita. “Dessa maneira, não o limitamos ao estoque da loja e, ainda, geramos recorrência”, justifica.

De acordo com o executivo, a palavra de ordem do momento é adaptabilidade. “Estamos cada vez mais voltados para ir além do varejo. Consolidando nossas lojas e integrando-as à nossa malha logística, com um time treinado para realizar os sonhos dos clientes em todas as suas fases da jornada de compra”, acrescenta Rodrigues.

Para Roberto Kanter, professor dos MBAs da Fundação Getúlio Vargas e diretor da consultoria Canal Vertical, para tentar dominar o disputado mercado digital, o grupo precisa, de fato, dessa mudança cultural. “A alteração para Via deixa clara a opção por transformar a empresa em um grande ecossistema de negócios, que tem a venda no varejo como centro, mas está aberta a comprar e conectar outras marcas à sua plataforma”, opina.

De acordo com Rodrigo Rodrigues, a Via está pronta para mudar o varejo digital brasileiro. “Temos as marcas que melhor se comunicam com o Brasil, estamos posicionados logisticamente para atender com excelência todos os pontos do País. E contamos – e esse é o meu maior orgulho – com o melhor time do varejo brasileiro. Um time que, nas lojas, no escritório ou em trabalho remoto, mostra inovação, adaptabilidade e um comprometimento que vão, sem dúvida, transformar o panorama do varejo brasileiro”, afirma.

A Via, ao que parece, tem tudo para ser uma pedra cada vez maior no sapato do Fred Trajano, do Magalu, que representa o principal case de sucesso no mercado digital brasileiro. Até agora.