Principal aposta do mercado de tecnologia, o conceito mescla realidade com o universo digital. Por trás de projetos de grandes companhias, como o Facebook, está a empresa Magnopus, que tem entre seus fundadores o brasileiro Marcelo Lacerda. Conversamos com ele para entender melhor o que está por vir

Não há dúvida de que o metaverso é a bola da vez no mercado tech. Considerado o “próximo capítulo da internet”, o conceito reúne um conjunto de tecnologias que têm, como pano de fundo, o Spatial Computing – em português, Computação Espacial.

Na prática, ao usar dispositivos como smartphones ou óculos especiais, o usuário é “transferido” a uma nova esfera. É como se o mundo ganhasse uma camada digital, que se sobrepõe à realidade física. O que parece ser coisa de séries e filmes de ficção científica está prestes a ganhar cada vez mais popularidade e se tornar algo comum na vida das pessoas.

E, a julgar as empresas que têm se dedicado à criação de produtos com base neste conceito, em breve todos terão algum tipo de contato com esse universo paralelo. O bilionário Mark Zuckerberg, dono do Facebook, é um dos grandes entusiastas dessa iminente revolução. Ele, inclusive, mudou o nome de sua empresa para Meta, em referência ao metaverso.

Além de Zuckerberg, gigantes como Microsoft, Google, Apple e Amazon também estão desenvolvendo projetos nessa área, a fim de abocanhar parte de um mercado que tem potencial de movimentar US$ 829 bilhões até 2028, segundo a consultoria Emergen Research.

“O metaverso não vai ser obra de uma companhia, não importa o quão dominante ela possa ser”, diz o brasileiro Marcelo Lacerda, cofundador da Magnopus, empresa que tem desenvolvido projetos nessa área para as big techs, incluindo o Facebook.

Para ele, o metaverso pode ser considerado uma nova versão da internet, agora mais imersiva. “Hoje, todas as grandes companhias de computação estão, em maior ou menor grau, trabalhando na construção de sua infraestrutura”, comenta.

Lacerda discute esse assunto com propriedade, afinal, ele é um dos pioneiros da internet no Brasil. Em 1986, o executivo fundou a Nutec Informática, que desenvolveu um dos primeiros provedores de internet no País, que, posteriormente, deu origem ao portal Terra.

Ainda no mercado digital, Lacerda também cofundou a F.biz, uma das principais agências digitais do Brasil, e, desde 2013, se dedica à Magnopus, baseada em Los Angeles, nos Estados Unidos.

“A Magnopus nasceu de um encontro casual com alguns dos fundadores. Apesar de não ser um especialista, sempre tive grande interesse pela área de computação gráfica. É uma área algorítmica difícil, mas ao mesmo tempo os resultados aparecem de forma visual muito atraente”, acrescenta Lacerda, que é formado em engenharia elétrica e ciências da computação.

Entre os sócios da companhia estão nomes como Ben Grossmann, Alex Henning e Rodrigo Teixeira, experts em efeitos visuais em produções bem-sucedidas de Hollywood, como Alice no País das Maravilhas, A Invenção de Hugo Cabret e Homem-Aranha.

“Quando eles decidiram sair da produtora de efeitos especiais, eu propus a criação de uma empresa de tecnologia que seria esse encontro de Hollywood com o Vale do Silício, com capital inicial inteiramente de brasileiros”, relembra Marcelo Lacerda. Entre os investidores estão Marcelo Peano, do fundo Pier 18 Capital, e Sylvio de Barros, da Webmotors.

A empresa já captou mais de US$ 50 milhões, que se somam a mais de US$100 milhões de receita ao longo dos últimos cinco anos. Todo o capital foi investido na criação de softwares e conteúdos, que hoje são desenvolvidos por uma equipe de 150 pessoas em Los Angeles, e mais 40 funcionários em St Albans, na Inglaterra.

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Marcelo Lacerda, da Magnopus: “O metaverso pode ser considerado uma nova versão da internet. Hoje, todas as grandes companhias de computação estão, em maior ou menor grau, trabalhando na construção de sua infraestrutura”. Foto: divulgação

Até hoje, mais de 80 projetos passaram pela Magnopus, que se tornou referência no mercado pela inserção de conteúdos imersivos e de computação espacial, em formatos como realidade virtual (VR), aumentada (AR), mista (MR) e simulações. Além da Meta (ex-Facebook), nomes como Nasa, CNN e Disney compõem o portfólio de clientes da empresa.

Um misto de realidade e ficção

Lacerda acredita que o metaverso pode ser considerado uma ampliação da cognição humana, já que será possível ter uma visão “raio X” ao enxergar através de uma parede, ou de “voar” de um espaço físico para outro.

Mas, para promover tanta inovação, os investimentos serão altos. Ele compara o fenômeno ao mesmo movimento ocorrido com a construção da internet, no qual exigiu investimentos maciços.

“Vai demandar a construção e constante alimentação de uma réplica digital do mundo físico nos seus mínimos detalhes. Imagine uma cópia perfeita da sua casa na nuvem (AR Cloud) permanentemente atualizada por câmeras e sensores – um gêmeo digital perfeito onde você pode receber amigos em qualquer combinação de presenças físicas ou virtuais”, diz.

Atualmente, a Magnopus é uma das principais empresas desenvolvedoras de projetos com base no metaverso. Sua expertise permitiu a criação de seu próprio produto, o Olympus, que será lançado no mercado em breve.

Ele reúne um conjunto de ferramentas para criar o tal “gêmeo digital”, permitindo que as pessoas atuem nesse ambiente e operem seu funcionamento de forma simples e intuitiva. “Mas podem existir muitas outras possibilidades para o metaverso, mundos inteiramente imaginários. Uma característica importante é que esses mundos se conectam, sejam eles imaginários ou existentes”, comenta.

O Olympus, inclusive, é um dos destaques da Expo Dubai, que ocorrerá até março de 2022. Vários componentes do Olympus estão sendo usados para que os visitantes “descubram” objetos e seres que existem apenas na esfera digital.

“À medida que os visitantes andam pelas ruas e ambientes da feira, o celular funciona como uma espécie de janela para um mundo invisível. É como se o mundo ganhasse uma nova vida digital que passa a ser parte do mundo de forma indistinguível do que consideramos ser a ‘realidade’”.

Ao lançar seu próprio produto, a Magnopus se posiciona, agora, como uma empresa de tecnologia com uma plataforma de software – o que Lacerda sempre ambicionou. Foram necessários anos para que os vários componentes que formam o Olympus fossem criados e testados.

“A Magnopus, certamente, não segue um dos sagrados mantras do Vale do Silício, que dita que você deve prototipar rápido, testar rápido e falhar rápido. Levamos oito anos para fazer o lançamento do Olympus, que deve estar em versão beta no início de 2022. Por outro lado, seus vários componentes são resultado de evoluções de vários projetos, feitos para as maiores companhias de tecnologia do mundo”, acrescenta.   

Uma vida híbrida

Segundo Lacerda, qualquer empresa pode ter acesso ao conjunto de tecnologias do metaverso. “Estamos vivendo como no início da internet. Todas as atividades humanas serão, em algum momento, afetadas por essa ampliação cognitiva que o metaverso vai trazer”, pontua. Como exemplo, o executivo cita o projeto da Magnopus com a Disney, no filme O Rei Leão, de 2019.

“Reproduzimos uma parte do Serengeti (África Oriental) em um estúdio no sul de Los Angeles. O time de filmagem, com Oculus Rift, do Facebook, andava neste gêmeo digital, no meio dos leões e hienas que tinham vida, filmando com suas conhecidas câmeras e lentes em versões virtuais. Algo que há poucos anos seria considerado ficção científica. Mas a tecnologia chegou em um ponto, em ambas as fronteiras de software e hardware, onde isso é possível.”

De acordo com ele, no futuro, este conjunto de tecnologias poderá ser acessado de qualquer dispositivo que tenha acesso à internet, seja ele celular, computador, televisão ou até um eletrodoméstico como geladeira.

“Em alguns anos, nosso celular vai se transformar em um par de óculos, algo que será permanente em nossas vidas. Esses óculos vão projetar uma camada digital em cima do mundo que enxergamos. Este é o momento em que os humanos passarão definitivamente a ter uma vida híbrida, biológica e eletrônica”, afirma Lacerda.

Entre os setores mais beneficiados com o metaverso, o executivo acredita que todos, com o tempo, serão impactados – assim como ocorre com a digitalização, que atinge todos os mercados. Inicialmente, as empresas serão os early adopters de aplicações do metaverso, com resultados revolucionários em várias áreas.

Os setores de entretenimento e criação colaborativa também estão em um horizonte imediato. “Mais para frente, a maior parte da atividade humana pode ser enriquecida e beneficiada, de forma que não é possível imaginar neste momento”, afirma.

Um novo mundo, muito mais rico em experiências

A proposta principal desse conjunto de tecnologias está em transformar a forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo. Estaremos, então, vivendo em um jogo de videogame, como o Second Life, que ganhou fama nos anos 2000?

Para o executivo, é possível imaginar cenários em que realidades paralelas existam em nossas vidas. Mas o Metaverso pode ser o contrário, uma volta ao mundo experiencial.

“Ben Grossmann costuma dizer que ‘quando éramos crianças, o mundo era rico em experiências e pobre em informação’. E que hoje ‘o mundo é rico em informação e pobre em experiências’. Ele se refere, é claro, ao fato de estarmos uma boa parte do nosso dia olhando para uma tela de celular. Ele conclui dizendo que ‘estamos construindo um futuro em que informação e experiências trabalham juntas em uma fusão dos mundos digital e físico’”, acrescenta.  

A fusão entre os dois mundos já está cada vez mais real – e surreal. Até terrenos digitais têm sido vendidos, a fim de formar um verdadeiro universo paralelo, com prédios, empreendimentos e interação com outras pessoas através de avatares. Recentemente, um terreno digital foi arrematado por US$ 2,43 milhões, provando o potencial deste mercado.

Para Marcelo Lacerda, o metaverso tem todas as ferramentas para transformar a forma como vivemos e nos relacionamos com o mundo, seja de modo positivo ou não. “Ele e as novas tecnologias vão permitir versões renovadas e, possivelmente, ampliadas de todos os aspectos da existência humana, sejam eles positivos ou negativos”, diz.