Com o avanço do metaverso, o setor varejista será fortemente impactado com as novas tecnologias. Um novo e-commerce promete surgir, cheio de experiências e de lucratividade

Desde que Mark Zuckerberg, fundador do Facebook (agora Meta), anunciou investimentos grandiosos no metaverso, o mundo passou a prestar mais atenção nesse conjunto de tecnologias que propicia uma realidade paralela.

Companhias de diferentes segmentos vêm estudando produtos e serviços com base nesta tecnologia, que, como Zuckerberg costuma dizer, “tem tudo para ser o próximo capítulo da internet”.

Tratando-se de comércio eletrônico, o metaverso tem potencial de transformar radicalmente o que conhecemos hoje. De olho nessa tendência, marcas de luxo já arriscam seus primeiros passos no chamado metacommerce.

Nomes como Gucci e Ralph Lauren são alguns que vêm ganhando dinheiro com seus produtos nesses novos ambientes hiper-realistas. Em relatório, a empresa Morgan Stanley estima que se essas companhias conseguirem se estabelecer neste ambiente, as vendas em plataformas 3D podem somar 10% às receitas das grifes de luxo até 2030, representando € 50 bilhões.

No Brasil, varejistas como Havainas, Renner e O Boticário também miram nessa provável mina de ouro. As duas primeiras inauguraram lojas no Fortnite, da Epic Games, um dos principais jogos baseados no metaverso atualmente.

Enquanto a marca de cosméticos se juntou ao Avakin Life, da Lockwood Publishing. Em ambos os ambientes virtuais, os jogadores têm acesso ao portfólio das marcas, fazem suas compras e as recebem em casa.  

“Consumidores gostam de novidade e estamos falando de uma experiência mais lúdica, com mais tentativa de tradução do que é a realidade. O metaverso fará um e-commerce 4.0”, opina Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC).

Para o professor Cláudio Carvajal, coordenador acadêmico dos cursos de Administração, Marketing Digital e Gestão de TI do Centro Universitário Fiap, a evolução das redes para o metaverso deve trazer o autêntico conceito do phygital (PHYsical + diGITAL) para o mercado: a integração do mundo real com o mundo virtual. 

“Essa mudança traz uma oportunidade para o varejo criar novas experiências para seus clientes”, diz. “Com a chegada dessa tecnologia ao comércio eletrônico, as pessoas – em especial as novas gerações que já estão conectadas – devem seguir cada vez mais para o mundo phygital, procurando essas novas tecnologias e experiências. Assim, se as empresas querem conversar com seus públicos, precisam estar no metaverso”, afirma.

No metaverso, o céu é o limite

Este novo ambiente abre portas para um mar de oportunidades. Estima-se que há 2,8 bilhões de gamers no mundo que, somados, gastaram US$ 200 bilhões em jogos em 2021.

“Hoje, vemos o e-commerce como uma experiência inteligente, mais conveniente, mas com pouca experiência e pouco lúdica. E a ideia de levar o e-commerce para o metaverso é justamente trazer a realidade de loja, de experimentar produtos e sensações”, analisa Eduardo Terra.

Nessa realidade paralela, os avatares se relacionam, conversam, assistem a shows e compram de tudo – até mesmo terrenos. Recentemente, um terreno digital foi arrematado por US$ 2,43 milhões, provando o potencial deste mercado.

“Estamos vivendo como no início da internet. Todas as atividades humanas serão, em algum momento, afetadas por essa ampliação cognitiva que o metaverso vai trazer”, afirma Marcelo Lacerda, cofundador da Magnopus, empresa que tem desenvolvido projetos na área do metaverso para as big techs, incluindo o Facebook. “Hoje, todas as grandes companhias de computação estão, em maior ou menor grau, trabalhando na construção de sua infraestrutura”, comenta.

Um novo e-commerce se aproxima

No formato metacommerce, além de produtos diversificados, os jogadores poderão pedir, por exemplo, uma refeição sem ter de sair do ambiente digital. Estamos diante de uma transformação sem precedentes, abrindo espaço para gigantes como iFood e outras tantas companhias de alimentação.

O iFood, inclusive, vivenciou esta experiência no Cidade Alta, principal servidor de GTA V da América Latina, onde os jogadores se transformaram em entregadores do app. O Outback também abriu seu próprio restaurante neste mesmo ambiente virtual.

Para Eduardo Terra, tudo leva a crer que este novo formato terá vida longa no País. “O Brasil é um sucesso em rede social, o que nos faz pensar que a base para o metaverso está formada. As barreiras principais são relacionadas à tecnologia. Ainda temos limitações de acesso importantes, mas o 5G pode viabilizar isso em, no máximo, dois anos”, afirma.

Nesse contexto, como se posicionam os vendedores? Ao que tudo indica, o vendedor terá cada vez mais um papel estratégico na comunicação com o cliente no mundo phygital. Mas, segundo o professor Cláudio Carvajal, será necessário desenvolver habilidades e competências que permitam falar com o cliente tanto no espaço físico quanto no ambiente virtual.

“É importante explorar as oportunidades que a tecnologia traz para atuar de forma ampla e escalável. Com o uso de metodologias e instrumentos, como ferramentas de realidade virtual e big data, a área comercial ganhará uma nova dimensão em escalabilidade em vendas”, diz.

Uma segunda chance para o Second Life?

Famoso nos anos 2000, o jogo Second Life, da Linden Lab, foi a primeira tentativa de criar uma infraestrutura de metaverso. Mas, por falta de tecnologias e maturidade digital naquela época, não alcançou o sucesso que almejava.

Mas, com o assunto na crista da onda novamente, o jogo tem tudo para ter uma segunda chance no mercado. “O Second Life foi um fracasso entre muitas aspas, lembrando que ele continua existindo e está voltando agora com toda essa discussão de metaverso. Hoje, estamos mais preparados tanto do ponto de vista de tecnologia quanto de mindset para essa vida mais paralela”, diz Eduardo Terra.

Uma nova realidade vem por aí e não há dúvida de que ela vai movimentar o setor varejista. “A partir de agora, veremos mais iniciativas nessa área. Ainda é cedo para afirmar que o e-commerce mundial seguirá esse caminho, pois estamos na fase de testes. Mas todos estão estudando essa infraestrutura”, diz Terra.