Nomes dos setores de logística, tecnologia e pagamentos definem o conceito e discorrem sobre a importância do digital em suas áreas de atuação

O termo “transformação digital” está na crista da onda, sobretudo, depois que a pandemia impôs uma verdadeira corrida contra o tempo entre as empresas que ainda seguiam totalmente offline. O conceito, definido pela Wikipédia como “um fenômeno que incorpora o uso da tecnologia digital às soluções de problemas tradicionais”, é compreendido de forma distinta por muitas pessoas.

Como forma de dissecar o conceito, convidamos executivos para analisarem, cada um sob seu próprio prisma, o que é transformação digital.

“Uma transformação digital é uma transformação que vem para facilitar o dia a dia das pessoas, tornando processos mais fáceis e eficientes e proporcionando uma melhor experiência”, resume Carlos Fernando Café, diretor de produtos do PagBank PagSeguro.

Tratando-se do setor de pagamentos, o digital chegou, de vez, para revolucionar esse mercado. Hoje, na era do Pix e de carteiras digitais, o dinheiro em espécie já é uma opção secundária na vida dos consumidores. Fora isso, existe o crescimento exponencial das transações digitais. 

“A indústria de pagamentos acompanhou essa evolução e passou a oferecer soluções para suportar essa nova realidade. Atualmente os varejistas têm acesso a diversas soluções de pagamento online, que vão desde link de pagamentos a APIs, integrações online e offline, soluções para social commerce e, com isso, podem atender seus clientes de forma totalmente digital”, complementa Carlos Fernando.

Carlos Fernando Café, do PagBank PagSeguro: “Uma transformação digital é uma transformação que vem para facilitar o dia a dia das pessoas, tornando processos mais fáceis e eficientes”. Foto: divulgação

A transformação digital já está tão enraizada no setor de pagamentos, que, independentemente do crescimento da economia, essa indústria tem avançado muito acima do PIB no Brasil – crescimento médio do PIB em 1% a.a. em termos reais, ou 7% a.a. em termos nominais nos últimos cinco anos, enquanto a indústria de pagamentos avançou em média 17% a.a. nesse período.

“Essa tendência deve persistir nos próximos anos, com o uso do cartão aumentando ainda mais sua participação no consumo das famílias. Cerca de 80% dos clientes novos que entram pelo nosso canal digital não aceitavam meios eletrônicos de pagamento antes do PagSeguro”, diz o executivo.

O futuro é mais rápido do que você pensa

No livro “O futuro é mais rápido do que você pensa: Como a convergência tecnológica está transformando as empresas, a economia e nossas vidas”, de Peter Diamandis e Steven Kotler, os autores acreditam que, nos próximos dez anos, a humanidade irá presenciar mais inovações do que as vistas no último século – fruto, é claro, da transformação digital em todos os setores.

“Diamandis e Kotler acreditam que, em cinco anos, a empresa que não partir para o universo digital tende a deixar de existir. Em outras palavras, é possível afirmar que, em pouco tempo, a digitalização será uma questão de sobrevivência”, opina Antonio Wrobleski, presidente do conselho de administração da Pathfind, empresa de soluções de tecnologia em logística.

Para o executivo, cada vez mais as decisões precisam ser tomadas com base no maior número de dados possível e isso não é viável sem a digitalização.

“O fato é que a transformação digital é um caminho sem volta. A grande vantagem do digital é a eliminação de intermediários e isso significa benefícios para o consumidor, que passa a ter total controle sobre suas decisões de compra. Já para as empresas, entregar rapidamente e com qualidade é indispensável na conquista de novos clientes.”

Antonio Wrobleski, da Pathfind: “A grande vantagem do digital é a eliminação de intermediários e isso significa benefícios para o consumidor, que passa a ter total controle sobre suas decisões de compra. Já para as empresas, entregar rapidamente e com qualidade é indispensável na conquista de novos clientes”. Foto: divulgação

Segundo Wrobleski, as empresas devem reunir esforços para encontrar e implementar soluções inteligentes com o objetivo de melhorar a experiência do consumidor. “Quem não se adaptar a isso vai ficar para trás. O futuro chegou mais rapidamente graças à covid-19 e não há como retroceder”, afirma.

Ainda no setor de logística, o alemão Stefan Rehm, CEO da Intelipost, enxerga a transformação digital como sendo a única solução para a complexidade logística no Brasil, que compreende a dimensão continental, falta de padronização, valor do frete e transporte. 

“A tecnologia tem potencial para transformar o mercado, promovendo melhores integrações e automatização dos processos, como gestão de envios e auditoria de faturas com as transportadoras, por exemplo”, explica. Com as soluções digitais da Intelipost, os custos logísticos de uma empresa podem cair até 30%.

Stefan Rehm, da Intelipost: “A tecnologia tem potencial para transformar o mercado, promovendo melhores integrações e automatização dos processos”. Foto: divulgação

“Devemos nos engajar para desenvolver melhores integrações e produtos que gerem maior velocidade e flexibilidade nas operações”, comenta Rehm.

Implementar o digital na operação ajuda a atender de maneira mais assertiva às necessidades dos consumidores, oferecendo, sobretudo, novas experiências de compra e de relacionamento com os vendedores.

“Muito mais do que apenas digitalizar os processos de uma empresa, a transformação digital incorpora mudança de mentalidade e cultura para seguir atendendo colaboradores, clientes e parceiros. A jornada digital está em constante evolução, pois as tecnologias são melhoradas a cada dia em uma espiral infinita. Atualmente, uma empresa não evolui se não aderir a esse movimento essencial e benéfico às organizações”, opina Antonio Fontes, CEO da VetBR, distribuidora de produtos para o mercado pet.

A VetBR foi além do comércio digital e colocou os vendedores como protagonistas de sua transformação. Por enxergar a importância de digitalizar a peça-chave da marca – os vendedores -, criaram a VetBR ON dentro de sua plataforma de vendas, uma espécie de canal direto com os vendedores.

Antonio Fontes, da VetBR: “Muito mais do que apenas digitalizar os processos de uma empresa, a transformação digital incorpora mudança de mentalidade e cultura para seguir atendendo colaboradores, clientes e parceiros”. Foto: divulgação

“É uma ferramenta que possibilita a venda online a qualquer momento, tendo nosso vendedor como protagonista. Por meio do VetBR ON, percebemos estar no caminho certo, pois o projeto teve grande sucesso em 2021 durante sua implementação, superando as expectativas. Estamos agora na fase do aprimoramento da plataforma”, explica o CEO.

Para o executivo, que também atua na distribuição de produtos e medicamentos para a pecuária, a tecnologia e a comunicação integradas têm permitido agilizar a troca de informações e conhecimento, o que tende a melhorar o atendimento aos clientes e a saúde dos pets.

“As empresas têm investido em soluções digitais para estarem mais próximas dos clientes. E essa convivência tende a ser de longo prazo, pois a saúde animal conecta ainda mais os tutores a seus pets. Logo, o comprometimento do setor com seu público se faz mais do que necessário, porque o consumidor vai buscar novos serviços digitais e produtos inovadores para o bem-estar animal.”

Entusiasta de tecnologia e soluções digitais, Fontes continuará investindo no aperfeiçoamento de seus produtos e serviços, visando um futuro ainda mais digitalizado.

“Acreditamos cada vez mais que, por meio da transformação digital, seguiremos entregando soluções diferenciadas, competitivas e alinhadas à atual – e futura – demanda de nossos clientes”, diz. 

Transformação além do e-commerce

O termo transformação digital é confundido também com virtualização e digitalização. Embora sejam palavras e conceitos em torno do digital, suas definições, no entanto, são bem diferentes.

De acordo com Rosalvo Piotto, head da CWS Insights, a virtualização é a conversão de informações analógicas para a nuvem; é passar uma informação do papel para o online; é a mudança do formato. “Seria como aquilo que vimos acontecer com a música: antes eram gravadas em cd’s e de repente passamos a armazenar em MP3. A virtualização seria então uma mudança no formato do armazenamento da informação”, explica Piotto.

Já a digitalização refere-se ao uso de tecnologias para melhorar processos e modelos de negócio. “É um ponto acima daquilo que definimos como virtualização. Como exemplo, uma empresa que tem call center e passa atender pelo WhatsApp ou uma marca que tem uma loja física e abre um e-commerce. Nesse caso, uma mudança no canal por onde você se comunica ou distribui o seu produto”, diz.

Rosalvo Piotto, da CWS, sobre transformação digital: “Trata-se de uma camada que desenvolve novos modelos de negócio e cria soluções que não existem". Foto: divulgação

Já o conceito de transformação digital vai além e envolve a criação de ambientes que propiciam o encontro de ofertantes e compradores. Tudo isso em escala e com inteligência de dados, resultando em novos modelos de negócio.

“De uma forma simples, refere-se à criação de um espaço, uma arena, reunindo pessoas que vendem e outras que querem comprar. O Uber é um bom exemplo: conseguiu juntar pessoas que possuem carros e pessoas que precisam de meio de transporte. Tudo isso em escala e de maneira eficiente. Trata-se de uma camada que desenvolve novos modelos de negócio e cria soluções que antes não existiam”, resume Piotto.

“É importante ter esses três níveis conceituais bem definidos para a criação de estratégias e estruturação de novos modelos de negócio”, conclui.