Como o Open Banking irá transformar o mercado financeiro

Em entrevista à CWS Insights, Ivo Mósca, membro titular do conselho da estrutura de governança regulatória do Open Banking no Brasil pela Febraban, explica como o sistema funcionará e o que virá pela frente

Em sua terceira fase de implementação no Brasil, o Open Banking promete ser um divisor de águas na vida dos consumidores brasileiros e facilitar a criação de soluções no sistema financeiro, que vive uma onda gigantesca de transformações que deve perdurar durante anos.

Com a chegada do Pix e o avanço do Open Banking, o consumidor se posiciona em um lugar de destaque e, agora, é a peça-chave do jogo, onde cada vez mais competidores travam uma disputa acirrada para dominar a maior parte do mercado.

E, se tratando do Open Banking, este jogo promete ser imprevisível, abrindo espaço para produtos ainda inimagináveis que virão de bancos tradicionais, fintechs e instituições que atuam com algum tipo de serviço financeiro. Estamos prestes a conhecer soluções que têm tudo para colocar o Brasil em um novo patamar perante outros países.

“Se pegarmos o Pix como exemplo, que já superou 75 milhões de usuários, que é quase toda a população bancarizada atual, estamos trazendo, em poucos meses de funcionamento, uma curva de adoção que é praticamente recorde mundial”, diz Ivo Mósca, membro titular do conselho da estrutura de governança regulatória do Open Banking no Brasil pela Febraban e Superintendente de Open Banking & Pagamentos Instantâneos do Itaú.

Para o executivo, o Open Banking tem potencial ainda mais surpreendente que o Pix. “Devemos ter uma velocidade de adoção maior, com o escopo maior e, portanto, com a possibilidade de trazer novos serviços. Com certeza, devemos nos tornar uma das geografias com maior número de participantes do Open Banking do mundo”, acrescenta.

Dados por benefícios

A principal mudança do Open Banking é que, agora, os dados dos clientes poderão ser compartilhados entre empresas e instituições financeiras – e não apenas restritos a uma companhia. Com essas informações, as empresas poderão desenvolver produtos mais assertivos, enquanto os consumidores poderão “trocar” seus dados por benefícios.

Um estudo da consultoria americana Accenture mostra que seis em cada dez consumidores no mundo estão dispostos a dividir dados pessoais em troca de benefícios. Para a pesquisa foram entrevistados 47 mil consumidores de 28 países, inclusive dois mil brasileiros. No Brasil, 67% dos entrevistados esperam que seus dados sejam usados para antecipar necessidades e recomendar produtos e serviços – acima da média global, que foi de 48%.

“O brasileiro é menos desconfiado do que a grande maioria das populações mundiais. Ele se importa muito menos em compartilhar seus dados e ter uma privacidade menor em relação a eles do que em outras geografias”, comenta Mósca.

Leia a primeira parte da entrevista com Ivo Mósca:

CWS Insights: Como está sendo a implementação do Open Banking no Brasil?

Ivo Mósca: Estamos na fase de implementação da fase dois e da fase três. A fase dois é aquela onde o cliente vai poder compartilhar seus dados cadastrais, que são aqueles utilizados para abertura de conta, por exemplo, tanto de conta corrente como de cartão de crédito. Os clientes, agora, vão poder compartilhar os seus produtos de créditos contratados, com todas as condições contratuais, o que vai permitir que outras empresas conheçam o perfil de adimplência desse cliente.

Nesse momento, o cliente ainda não sente nenhuma mudança, mas vai passar a sentir muito em breve. A fase dois entrou no ar dia 13 de agosto. Ela ainda começa com público reduzido, com percentual pequeno de clientes das instituições, menos de 1%, mas esse volume se escalará até meados de novembro, onde todos os clientes vão poder compartilhar suas informações com as instituições participantes do Open Banking.

Ivo Mósca, do Itaú: "Com certeza, devemos nos tornar uma das geografias com maior número de participantes do Open Banking do mundo". Foto: divulgação

Os clientes passarão a sentir a diferença a partir do início de 2022; enquanto o mercado como um todo, desde setembro já sente a diferença. O cliente vai poder facilmente compartilhar os seus dados com outras instituições para que elas possam através da identificação dos dados do cliente, do perfil transacional e dos produtos contratados, trazerem ofertas com perfis muito mais competitivos.

CWS Insights: Qual tem sido o principal desafio desse processo?

Ivo Mósca: Por conta do prazo extremamente apertado para a implementação, o grande desafio é fazer a integração de todo esse novo ecossistema entre todas as instituições. Enquanto no Pix existe um sistema transacional único, gerido pelo Banco Central, todas as instituições têm que se conectar nesse ecossistema e as transações fluem por lá.

No Open Banking é diferente. Todas as instituições se conectam entre elas e os dados são transmitidos diretamente entre as instituições. Claro que sempre com o consentimento e autorização do cliente. Este é o principal desafio: fazer toda essa integração, mas de forma padronizada, que vai facilitar com que esse fluxo seja muito simples e facilmente interpretado pelas instituições. Isso deve facilitar e, inclusive, ajudar na escalada do Open Banking numa velocidade tão grande quanto vimos para o Pix.

CWS Insights: Quais serão as grandes vantagens para o consumidor e para as empresas?

Ivo Mósca: O cliente tem controle total sobre os dados, porque, a partir deste momento, ele é o dono de seus dados transacionais e de produtos contratados dentro dessas instituições financeiras. E é ele – só ele – que poderá escolher pra onde podem ou devem ser transitados.

Sendo assim, o cliente vai poder trocar esses dados por benefícios. Por exemplo: hoje o que eu conheço de um potencial cliente ou de um cliente são os dados que eu tenho na minha instituição, muitas vezes com informações adquiridas de outras empresas, inclusive fornecedoras de dados. Acontece que ninguém conhece melhor o seu cliente do que aquele que detém suas informações financeiras e, muitas vezes, ele trata com mais de uma instituição.

Nem todo mundo, então, tem as peças do quebra-cabeça para ser assertivo na oferta, tanto entendendo a necessidade do cliente em termos de produtos quanto a própria necessidade de pagamento desse cliente.

Com o Open Banking haverá uma visão integrada sobre a vida financeira de um consumidor pessoa física ou pessoa jurídica. E, principalmente, no caso das empresas que costumam trabalhar com mais de um banco isso ainda vai ser potencializado. Porque a instituição financeira que tiver as informações das demais vai poder conhecer a vida desse cliente e conseguir trazer as ofertas de acordo com a real necessidade dele.

E não apenas de acordo com a informação que você detinha antes dentro da sua instituição. Inclusive podendo comparar preços de produtos e trazer ofertas mais competitivas ou com preços mais baixos, trazendo um ganho econômico significativo para o consumidor.

CWS Insights: Como as empresas provedoras de serviços financeiros poderão traduzir esses dados, em especial os não estruturados? Este é um desafio para elas?

Ivo Mósca: O primeiro ponto aqui é que, diferentemente de outras geografias precursoras no Open Banking, nós já estamos saindo com um formato bastante padronizado. Temos um nível alto de padronização e isso vai fazer com que esses dados sejam rapidamente identificados e tratados pelas instituições de uma forma eficiente. O desafio adicional é efetivamente traduzir o que cada linha de cada extrato de instituição significa.

Mas como hoje os cliente já o fazem, basta que a instituição agregue essa inteligência de dados, que é algo que tem sido amplamente utilizado. Inclusive, já existem hoje instituições, empresas ou até mesmo fintechs que fornecem serviços de agregador financeiro e que já fazem uma tradução desses dados. Hoje isso acontece via screen scraping, que é quando uma empresa, através dos dados de login do cliente, consegue acessar e “ler” a tela que é apresentada para ele.

Agora isso tudo passa a ser oficializado e tratado de uma forma eficiente e segura, principalmente, através de APIs. No final das contas, não haverá um grande esforço nessa tradução. Eu acho que o grande esforço das instituições, principalmente aquelas que ainda não estão acostumadas a trabalhar com esse volume de dados, vai ser transformar esses dados em um formato inteligente ou fazer uma utilização inteligente dessas informações, como, por exemplo, na evolução de modelos de concessão de crédito.

CWS Insights: Nesse cenário, ao que parece, os bancos tradicionais perderão seu maior trunfo, que são os dados dos clientes. Qual será o caminho para continuarem competitivos?

Ivo Mósca: Na verdade o que conhecemos hoje é a parte financeira que cabe dentro da instituição, mas muitos clientes já detém uma série de serviços em outras instituições. E não podemos pensar só na nossa base atual de clientes. Temos que pensar na base potencial de clientes ou de prospects.

Hoje, quando eu quero conhecer um novo cliente e eu não tenho uma informação sobre ele, as grandes instituições precisam conviver um tempo com ele e entender as suas finanças. Com o Open Banking essa barreira também cai.

Um novo cliente do Banco Itaú, por exemplo, eu consigo adquirir todo seu histórico transacional e de produtos contratados do último ano. Isso vai fazer com que a minha inteligência que eu já tenho hoje e evolução de anos de investimento em inteligência de dados, facilite e muito a assertividade da minha oferta pra esse cliente.

Na verdade, então, os bancos não perdem competição. Na verdade, isto abre uma oportunidade para que eles, inclusive, aumentem suas presenças em todo o mercado financeiro.

E é assim que o Itaú tem tratado: como uma grande oportunidade de conhecer novos clientes e conhecer ainda melhor seus clientes atuais.

CWS Insights: Acredita que haverá cada vez mais parcerias entre bancos e fintechs?

Ivo Mósca: Sim. Hoje quando a gente trata de evoluções são anos de evolução tecnológica e há uma série de sistemas e estruturação de governança interna das instituições que acabam realmente trazendo um desafio em termos de velocidade.

A solução está na parceria com empresas especializadas em tratar soluções nichadas, seja em termos de serviços específicos, seja em termos de públicos específicos. E esta é a melhor forma de você acelerar a entrega de novos produtos e serviços por parte das instituições.

Existem empresas que estão evoluindo neste caminho, que chamamos de banking as a service (BaaS), e estão prestando uma série de serviços para que as instituições evoluam em termos de prateleira de produtos. Vai ser muito comum ver uma série de parcerias.

CWS Insights: Assim como os consumidores, agora as fintechs estão também mais empoderadas?

Ivo Mósca: É importante a gente lembrar que, no Open Banking, só participam instituições autorizadas a funcionar pelo BC. A fintech já precisa ter um nível de evolução e autorização do BC pra poder participar desse ecossistema. E estas, sim, poderão ter um empoderamento e oportunidade de poder evoluir em serviços, que eu acredito que serão muito mais complementares do que substitutos dos atuais prestados pelas instituições financeiras.

É claro que as fintechs, observando todo esse mercado, também podem evoluir como empresas de softwares as service e, portanto, apresentar soluções para que façam parcerias com as atuais instituições financeiras do mercado.

CWS Insights: Quais países têm se destacado com a implementação do Open Banking? O Brasil tem potencial de estar no ranking dos países mais inovadores tratando-se do sistema financeiro?

Ivo Mósca: A Europa, principalmente o Reino Unido, está entre as geografias mais maduras. Mais recentemente também tivemos uma implementação na Austrália. Ambos os países foram referências para a construção do Open Banking no Brasil.

Há diferenças em relação a essas geografias, já que algumas delas não nasceram totalmente padronizadas. No Brasil, já temos informações mais padronizadas.

A outra questão é em relação ao escopo. O escopo do Open Banking no Brasil é superior a essas geografias e, portanto, vai trazer já de cara um beneficio maior para todo o mercado.

Interessante, dentro desse contexto, é lembrar que o brasileiro tem uma avidez maior por compartilhar dados em troca de benefícios. E conseguimos ver, inclusive, o interesse do brasileiro por novidades.

Se olharmos para o Pix como exemplo, que já superou 75 milhões de usuários, praticamente quase toda a população bancarizada atual, em apenas alguns meses de funcionamento, temos uma curva de adoção praticamente recorde mundial. Só empatamos com a curva de adoção da Dinamarca.

Com o Open Banking não deve ser diferente, principalmente porque temos ainda poucas informações abertas para que fossem feitas ofertas mais assertivas de acordo com o perfil específico de cada cliente.

Devemos ter uma velocidade de adoção maior, com o escopo maior, portanto, com a possibilidade de trazer novos serviços. Com certeza, devemos nos tornar uma das geografias com maior número de participantes do Open Banking do mundo.

Continue lendo a entrevista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Quer saber mais sobre transformação digital?
Siga nossas redes sociais
Quer saber mais sobre
transformação digital?

Siga nossas redes sociais

Contate nossos consultores e digitalize seu negócio com a Plataforma CWS