Em meio às mudanças no mercado, empresas de diferentes setores vêm acelerando os passos rumo à digitalização. Mas, durante esse processo, nem sempre as companhias têm seguido o caminho certo. Reunimos, aqui, pontos fundamentais que servirão como base para um projeto digital de sucesso

Nos dias de hoje, projetos que visam a digitalização de produtos e serviços não são mais novidade. Eles já são esperados pelos consumidores, que, além de estarem mais conectados, agora anseiam por novas experiências. Não à toa, muitas empresas pisaram fundo no acelerador nos últimos meses para continuarem relevantes e competitivas no mercado.

Mas nem sempre esses projetos obtém êxito, uma vez que transformação digital é um processo complexo e, portanto, se não houver estratégias bem definidas e ações assertivas, os resultados podem sair ao contrário do esperado.

Nesse contexto, pode-se comparar o processo digital ao mesmo enfrentado pelas startups. Grande parte delas passa por “ajustes de percurso” quando necessário. “A comparação faz todo sentido”, diz David Kallás, professor de estratégia do Insper. “Antes, você definia que estava no ponto A e queria ir para o ponto B, e o caminho era traçado. Porém, quando se fala de digitalização, o ponto B, na realidade, não é mais preciso. É muito comum que sejam feitas alterações de rota ao longo do tempo.”

Como forma de minimizar essas alterações de percurso, a consultoria americana McKinsey elaborou um estudo elencando elementos fundamentais para uma transformação digital bem-sucedida.

De acordo com a análise, as companhias que alcançam sucesso no digital têm, em comum, estratégias e objetivos digitais; testam o projeto antes de lançá-lo e, assim, conseguem fazer os ajustes necessários; têm planos de captação e retenção de talentos; promovem a mudança cultural da empresa e, por fim, criam seu próprio ecossistema digital.

“Haverá um salto muito grande no número de companhias brasileiras que vão repensar seus modelos de negócio e que investirão em transformação digital”, prevê Cláudio Carvajal, coordenador acadêmico da Fiap.

1. Estratégias e objetivos digitais
O primeiro grande passo no processo de transformação digital é o alinhamento de uma estratégia que tenha como foco novas formas de criação de valor a partir da tecnologia. Ou seja, com o suporte digital, a empresa poderá ofertar novas experiências, serviços ou produtos que, de fato, impactem a vida do consumidor.

Uma ferramenta importante para medir a aprovação de ações e iniciativas que serão implementadas são os KPIs (Key Performance Indicator) – ou indicadores-chave de performance, em português -, que atuam como uma espécie de termômetro de desempenho de uma empresa, área ou determinado projeto.

De acordo com o estudo da McKinsey, “os bons KPIs devem também abordar questões culturais como a satisfação dos funcionários, medidas organizacionais ou métricas relacionadas com a capacidade, como a percentagem de funcionários com formação digital ou a rotação de funcionários com talento digital.”

2. Test and learn
Antes de colocar em prática um projeto, a empresa deve testar o produto ou serviço através de um modelo piloto. Dessa forma, a companhia terá acesso ao feedback de clientes e poderá, de uma forma rápida, fazer os ajustes necessários.

Ter essa estratégia de teste e aprendizagem como algo recorrente é o ponto de partida para uma transformação digital bem-sucedida. Para o professor Francisco Alvarez, dos cursos de MBA Marketing e Branding e da Pós-graduação em Marketing da FIA, o test and learn faz sentido.

“Digitalização é repensar todo o modelo de trabalho, é um desafio grande. Os projetos vão se adequando à medida que o processo e as experimentações evoluem”, diz.

3. Talentos e capacidades
Para desenvolver projetos digitais assertivos não basta contar com o suporte da tecnologia. É preciso ter bons profissionais na equipe. Para atrair e reter talentos, é preciso oferecer ambientes de trabalho atrativos e os incentivos certos.

Se a companhia for terceirizar profissionais, é preciso, então, escolher uma empresa que tenha boa reputação no mercado e que comprove a qualificação dos profissionais envolvidos no projeto.

“Desenvolver competências é fundamental. Equipes alinhadas com as estratégias e antenadas com o mercado, com conhecimento e técnicas atualizadas, fazem toda a diferença nos projetos”, afirma Roberto Alonso, professor de marketing da FIA.

4.Mudança cultural
Hoje, para que um projeto digital tenha sucesso, é necessário promover uma nova cultura na empresa. Isso significa envolver todas as áreas, de forma que todos os funcionários tenham conhecimento das iniciativas digitais que serão implementadas na companhia, e, mais do que isso, contribuam com suas habilidades e ideias, a fim de melhorar os resultados.

Mas, é claro, que toda transformação – seja ela digital ou não – tem de começar de cima. “A participação do CEO é essencial, porque dele se origina as decisões que precisam ser tomadas quase sempre em tempo real”, diz Roberto Alonso.

Segundo a McKinsey, 70% das transformações digitais falham de maneira recorrente por falta de engajamento da organização, tanto dos funcionários como da liderança. Quando há envolvimento dos funcionários na transformação digital, as probabilidades de êxito aumentam em 1,4 vezes; enquanto quando há o engajamento de líderes, configurando a mudança cultural, as chances saltam para 1,5 vezes.

Para acelerar o processo de transformação digital, companhias vêm se empenhando para mostrar aos funcionários a importância da digitalização, jornadas integradas e experiências relevantes.

Para Miguel Alcântara, CIO da Alliar, a mentalidade ultrapassada de muitos executivos, no entanto, pode impactar os resultados de projetos digitais.

“Muitos, no máximo, automatizam alguns passos do processo atual. O poder de captar investimentos e saber reinvesti-los pensando na sua futura posição é que faz com que avancem em todos os níveis da transformação digital. Também não haverá evolução para quem acha que o futuro será uma pequena variação do que já existe, não experimentando novos caminhos por achar que já o fazem”, afirma.

5.Ecossistema digital
Quando um negócio já está consolidado e pode ser replicado para outras companhias e setores, pode-se dizer que ele já atingiu o ápice de sua transformação digital. Na prática, é quando já se tem um ativo, uma base grande de usuários e domínio da plataforma, e é possível unir forças com outras empresas, a fim de criar um ecossistema único. É o caso da americana Amazon e sua plataforma, a AWS.

Após criar inúmeras competências digitais e acumular um grande número de clientes em sua base, a companhia de Jeff Bezos começou a oferecer suas competências a outros negócios. Pequenas e médias empresas, sem a mesma capacidade financeira e tecnológica, passaram então a utilizar a plataforma e novos serviços. Agora, os clientes da Amazon são outras empresas e não apenas os clientes finais.

Muitos projetos que querem atingir a maturidade digital, no entanto, não conseguem alcançar a tão almejada meta. “No Brasil, é difícil dizer o motivo exato de muitas empresas não saírem da fase inicial no processo de transformação digital, mas, de forma ampla, acredito que muitas companhias no País ainda tratam a inovação e o desenvolvimento de tecnologia como um processo com começo, meio e fim, budget e deadlines definidos. Tudo isso é o que mata a inovação justamente na primeira etapa, onde é preciso mais liberdade criativa e a chance para errar, aprender e melhorar” opina Gustavo Goldenberg, CPO da Vuxx.

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