7 min read

Em tempos de prevenção, o dinheiro em espécie pode representar um perigoso meio de transmissão para a Covid-19. Por isso, as transações digitais e os pagamentos sem contato têm sido incentivados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para minimizar os riscos de contaminação. Em conversa com o professor Edson Germano, da FIA, ele diz que o momento será crucial para a transformação do setor

No começo de março, o jornal britânico Telegraph publicou uma matéria alertando sobre o risco de propagação do novo coronavírus através do dinheiro em papel.

Na publicação, um porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que as pessoas optem pelos pagamentos digitais, a fim de evitar a disseminação da doença Covid-19.

A declaração lança luz sobre um assunto que vem ganhando força no Brasil e no mundo nos últimos tempos: a digitalização do setor de pagamentos.

“As pessoas estão sendo ‘obrigadas’ a usar a tecnologia por questões de segurança neste momento, mas elas vão perceber que o digital pode facilitar o dia a dia durante a normalidade”, aponta Edson Germano, coordenador dos programas de Tecnologia de Informação e Cibersegurança da FIA.

O potencial do avanço deste setor, em tempos de coronavírus, já se mostrou surpreendente para a Cielo, que anunciou que, em uma semana, os pagamentos através de links obtidos pelo aplicativo Cielo Pay cresceram 200%.

“No Brasil, tudo irá mudar após algumas semanas de quarentena. Estamos sendo forçados a usar a tecnologia para fazer coisas que ainda resistíamos e fazíamos apenas de forma física”, opina Germano.

Empresas de entrega por aplicativo, como Rappi e iFood, também têm incentivado os usuários a pagarem através da plataforma para minimizar o contato entre o cliente e o entregador.

O iFood, inclusive, tem orientado os entregadores a deixarem os pedidos na porta do usuário para não haver nenhuma interação. Outra forma de acabar com o contato vem da tecnologia NFC (Near Field Communication).

Trata-se de pagamentos por aproximação, que podem ser feitos com cartão, smartphone ou até mesmo acessórios, como relógio, ao se aproximarem de dispositivos que tenham a tecnologia.

O QR Code, método que vem sendo amplamente disseminado no País através de inciativas de companhias como PicPay e Mercado Pago, e de varejistas que têm usado o sistema para levar consumidores aos seus aplicativos, também promete ganhar mais projeção nos próximos meses, segundo o professor.

Dinheiro em evolução

Na edição de junho de 2018 da IMF F&D Magazine, intitulada “The Future of Currency in a Digital World” (O futuro da moeda no mundo digital), a imagem sintetiza o que já vem ocorrendo no mundo e que será mais visível após o coronavírus: o papel-moeda fará parte do passado, assim como os cartões de plástico. A evolução é representada pelas transações digitais. Imagem: International Monetary Fund (IMF)

“Neste momento, para evitar o uso do dinheiro, tecnologias como QR Code e carteiras digitais entram de forma ‘forçada’ no cotidiano dos brasileiros. No entanto, esse uso vai amadurecer e muitas pessoas enxergarão, além da praticidade, também segurança, uma vez que você não carrega mais consigo o dinheiro, mas consegue acessar suas funcionalidades através da tecnologia.”

Confira os principais trechos da entrevista com o professor Edson Germano:

CWS: Além da praticidade, quais outros pontos tendem a ser beneficiados com a digitalização do setor de pagamentos?

Edson Germano: O dinheiro virtual elimina o anonimato do dinheiro em espécie, o que torna a economia mais controlável. Até mesmo as criptomoedas não permitem o total anonimato, como têm revelado pesquisas atuais. Além disso, se reduz o espaço para a criminalidade física. Deixar de usar dinheiro em espécie não é apenas uma questão de conveniência, mas principalmente de segurança pessoal.

CWS: Com menos pessoas nas ruas, mais compras e transações serão feitas digitalmente. É possível ter uma estimativa de quanto o mercado poderá crescer no País nos próximos meses?

Edson Germano: Acredito que esse mercado irá dobrar de tamanho em 2020. Um estudo recente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), feito em parceria com a Deloitte, destacou um aumento significativo de transações financeiras (pagamentos de contas e transferências de valores) através do mobile banking realizadas pelos brasileiros.

Esse fato é importante, pois o banco é algo muito presente na vida das pessoas e mostra que elas passaram a adotar o celular para acesso e movimentação de suas contas bancárias. Confiar em “usar” o dinheiro pelos aplicativos pode ser encarado como um primeiro passo para que o consumidor adote essa tecnologia e passe a utilizar cada vez mais novos aplicativos em atividades de seu cotidiano.

As pessoas passarão a utilizar e a se familiarizar com os apps de compras e pedidos virtuais e, muito rapidamente, perceberão que podem utilizar os mesmos para qualquer outro produto.

CWS: Novos modelos de negócios poderão surgir por conta do coronavírus?

Edson Germano: Certamente a demanda das empresas irá aumentar e, para que elas consigam atender esse aumento, novas oportunidades de negócios B2B e B2C vão aparecer e darão espaço para que novos modelos sejam criados.

CWS: Qual será o legado do coronavírus no mundo dos negócios e dos pagamentos?

Edson Germano: Talvez mais do que acelerar, vai deixar muito claro que existem princípios e formas recomendadas para a transformação digital das empresas. O caminho comum é a sequência de digitalização e a transformação digital por completo.

As empresas que estão na etapa da digitalização certamente vão “perder” para as que já conseguiram passar pela transformação digital. O coronavírus vai diferenciar companhias que estão “fazendo” a transformação digital da forma correta daquelas que “pensam” ou “dizem” que estão fazendo a transformação digital. E isso vai ficar claro nos resultados financeiros e na variação do número de clientes delas.

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

Gostou do texto?

Tem alguma observação ou pergunta para colaborar com a discussão?
Deixe abaixo nos comentários.

Fique atualizado com todos os nossos conteúdos