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O que companhias como Embraer, Coca-Cola, Visa e Ford têm em comum? Além da fama e do poder em seus respectivos mercados de atuação, elas são adeptas à metodologia design fiction, a qual usa a criatividade para projetar o amanhã. Saiba por que prever o futuro pode ser um bom exercício para o seu negócio

Em 1989, o filme De Volta para o Futuro 2 já arriscava a anunciar um produto que poderia fazer parte das nossas vidas em 2015: óculos de realidade virtual. Na produção cinematográfica Minority Report, de 2002, carros autônomos e telas sensíveis ao toque roubavam a cena na obra estrelada por Tom Cruise. Mais adiante, em 2014, Eu, Robô, projetou 2035 como ano em que robôs poderiam ser usados para servir humanos.

Podemos continuar citando trechos de filmes e séries, que têm como tema principal a ficção científica, onde tais premonições se concretizaram – muitas, inclusive, bem antes do previsto.

O exercício de prever o futuro, no entanto, não se limita mais às telas de cinemas e programas de entretenimento. Ele, agora, pode ser aplicado no seu negócio. E não me refiro aos relatórios sobre tendência elaborados por consultorias.

Trata-se da metodologia design fiction, na qual promove a visualização do futuro a partir de um determinado propósito. Nela, não há limitações econômicas e tecnológicas do presente.

A inciativa baseia-se em estudos aprofundados e pesquisas sobre tendências e mudanças de comportamento do consumidor, onde é apresentada de forma distinta: em curta-metragem, em encenações teatrais, reportagens fictícias, entre outros meios. Todos eles retratados e estrelados pelos funcionários da marca que usa a técnica.

No Brasil, a UP Lab, laboratório de projetos transmídia, é uma das empresas de destaque na aplicação da metodologia. “Usamos cenários de futuros ficcionais de modo a imaginar e examinar possibilidades de uso de um produto, por exemplo. Isso pode ser visto como uma forma de prototipação, mas, no design fiction, nós realmente criamos uma narrativa, um universo para girar em torno desse protótipo”, explica Lidia Zuin, head do núcleo de inovação da UP Lab.

Através da mentalidade da ficção científica, o exercício cria objetos, sistemas e comportamentos que geram uma história e um contexto a ser analisado como possibilidade futura – seja ela boa ou ruim. “O design fiction é basicamente um ‘design thinking’ (conjunto de ideias para abordar problemas futuros e soluções) que utiliza a ficção científica como pano de fundo para pensar cenários com prazos de tempo mais avançados do que numa prototipagem comum.”

Nova técnica

De olho no futuro: Lidia Zuin durante apresentação na Embraer. Foto: divulgação

O horizonte para a projeção fica em torno de dez anos. “Por isso, a metodologia é bastante usada para tirar as pessoas da sua zona de conforto e pensar muito além da temporalidade com a qual estão acostumadas”, explica a profissional.

No Brasil, a prática ainda não é tão comum. Mas em mercados como os Estados Unidos, por exemplo, o método faz sucesso. Tanto, que a empresa SCIFutures tem o apoio de mais de 280 escritores de ficção científica para elaborar histórias de inovação e tecnologia. “Elas tornam-se a base para a mudança cultural, novas ideias e conceitos para impulsionar os negócios de nossos clientes”, diz o CEO, Ari Popper.

Na lista de projetos futuristas criados por sua companhia, destacam-se gigantes como Ford, Intel, Visa e Coca-Cola. “O maior benefício é a conexão mais profunda com o material, tecnologias e, mais importante, com as pessoas que são retratadas. A ficção nos ajuda a desafiar e mudar a crença”, analisa Popper.

Os projetos, em ambas as empresas, são customizados e, portanto, não é possível precificá-los. Estima-se que fora do País os workshops custem, em média, US$ 45 mil. Embora o custo do exercício de criatividade não seja baixo, os ganhos podem valer o investimento.

“Podemos medir a qualidade e a quantidade de ideias geradas por essa abordagem, bem como os efeitos a longo prazo nos resultados de negócios, se as ideias foram lançadas”, diz Popper. “É uma ótima ferramenta para compreender que, de fato, as transformações são possíveis.”

A análise de Popper vai ao encontro da opinião do coordenador dos cursos de MBA da FIAP, Guilherme Pereira. “A grande questão não é acertar um cenário, mas, sim, de exercitar a capacidade de enxergar possíveis futuros a partir de elementos que estão presentes hoje. Pequenas inflexões ou comportamentos podem ser a base de uma grande revolução”, afirma. “Sem dúvida é um dos bons exercícios possíveis, mas recomendo não fazer o uso da técnica apenas pelo lado lúdico de sua aplicação. É um trabalho sério”, diz.

Pensar fora da caixinha

Em um mundo cada vez mais digitalizado, prever o futuro não é uma má ideia, afinal, 8 em cada 10 executivos percebem a transformação digital como um fator que impacta diretamente seu mercado de atuação, segundo o estudo Business Impact Insigths, feito pela multinacional brasileira CI&T, que analisou cerca de 200 executivos com cargos de liderança.

“Nem sempre as pessoas têm espaço para a imaginação e criatividade no dia a dia do trabalho. Um dos feedbacks que já recebi foi sobre a felicidade em poder pensar muito além”, diz Lidia.

Por ser uma metodologia bastante adaptável de acordo com o orçamento e o objetivo da empresa, os formatos são variáveis. “Com uma verba maior, podemos utilizar parte dela para criar cenários, trazer figurinos e instalações que realmente amplifiquem a imersão ao longo do processo”, comenta.

Recentemente, a Embraer usou os serviços da UP Lab, em parceria com a Rito, para prever o futuro da aviação. A primeira fase coletou pesquisas e informações sobre este mercado a partir das verticais de inovação da companhia. Posteriormente, o workshop contou com a participação de engenheiros, profissionais de comunicação e marketing, e colaboradores da área de inovação.

Workshop

A Embraer também imaginou o futuro da aviação através do design fiction. Foto: divulgação

“Para isso, criamos uma encenação em que todos eram atores. Eles foram dirigidos pela Sheylli Calefi, que além de ser diretora de cinema e atriz, também é facilitadora da metodologia. Assim, eles foram conduzidos a pensar cenários de futuro através de ferramentas como ‘cones de futuros’ e ‘what if’, entre outras”, explica Lidia.

“No final do dia, tínhamos reportagens sobre notícias fictícias criadas pelos próprios colaboradores da Embraer, onde, inclusive, elaboraram roteiro para curtas-metragens sobre robótica, inteligência artificial e biotecnologia.”

O futuro do varejo – e do Brasil

A CWS propôs a Lidia imaginar como será o varejo brasileiro no mesmo horizonte de tempo de seus projetos – dez anos. Para a profissional, já estaremos seguindo o mesmo modelo de outros mercados: menos espaços físicos e mais interação digital.

“Aqueles que ‘sobreviverem’ vão se transformar em locais de experiência, muito mais do que de compra. Vamos também usar novas formas de pagamentos, como cartões de crédito integrados à aplicativos e processos, como na Amazon Go. Além disso, veremos a fragmentação de grandes indústrias para pequenas iniciativas e hubs, e o uso maior da internet e da produção on-demand”, aposta.

Os setores de apoio do varejo, como financeiro, comunicação e logística, igualmente vão se tornar mais eficientes. O primeiro, segundo ela, terá a atuação maior do blockchain e das criptomoedas, como forma de romper a intermediação de bancos nas transações financeiras.

“Na comunicação, a inteligência artificial permanecerá dando impulso aos chatbots, que continuarão otimizando atendimentos, mas de forma não menos humana, já que, cada vez mais, é aprimorado o processamento de linguagem natural”, diz.

Enquanto na logística, em sua visão, será comum a utilização de drones e de carros autônomos para entregas. “Por outro lado, se pensarmos mais adiante, nada mais precisará ser entregue: imagina se pudermos imprimir desde nossas roupas até a comida através de impressoras 3D?”, questiona.

Bem, as impressões de roupas e de alimentos no País podem ainda estar longe da nossa realidade. Mas seria incrível nos espelharmos na Estônia para simplificar alguns procedimentos que hoje são extremamente burocráticos.

O país europeu ganhou fama por realizar todos seus processos através de uma única plataforma digital. Apenas três serviços necessitam da presença física do habitante: casamento, divórcio e transferência de imóvel. O restante pode ser resolvido com a assinatura digital.

“Acredito que podemos dar um passo grande na possibilidade de usar a tecnologia para melhorar a transparência de nossos processos, especialmente a nível político e burocrático. Espero que até lá consigamos realizar muitas das atividades que ainda fazemos analogicamente através de plataformas organizadas em blockchain”, vislumbra Lidia.

Já na visão de um estrangeiro, as possibilidades resultantes da tecnologia são infinitas. “Ela tem o poder de dar uma vantagem radical às nações em desenvolvimento, que poderão romper grandes barreiras hoje intransponíveis”, opina Ari Popper. Que assim seja.

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Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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