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Conectando desde restaurantes e farmácias até produtos para pet e aluguel de patinetes, a startup colombiana acelera para se tornar o “WeChat” da América Latina. Em entrevista à CWS Insights, o principal executivo da empresa no Brasil, Ricardo Bechara, analisa o perfil dos consumidores brasileiros e afirma que o País tem potencial de chegar ao mesmo patamar digital da China

Em apenas cinco anos de existência, a colombiana Rappi viu seu modelo de negócio explodir em mais oito países da América Latina, incluindo o Brasil. Nesse período, a startup alcançou o título de unicórnio e atraiu a atenção do grupo japonês Softbank, que depositou US$ 1 bilhão na operação.

Agora, o “tanque abastecido” servirá de impulso para a consolidação em um mercado que vem sendo almejado pelos principais players de entrega do momento: o dos super aplicativos, que reúnem diferentes serviços e produtos em uma única plataforma.

“Já somos um super app, pois agregamos vários serviços em um mesmo canal. No entanto, almejamos ser o aplicativo da primeira tela dos usuários, facilitando ainda mais suas vidas e oferecendo a eles mais tempo”, diz Ricardo Bechara, diretor de expansão e cofundador da Rappi Brasil. “Acredito que estamos no caminho para nos tornar o maior da América Latina”, afirma.

Sem esconder o apetite para se tornar o “WeChat” latino-americano, a startup mira revolucionar a forma como os consumidores se relacionam e fazem suas transações financeiras, seguindo o mesmo modelo da gigante chinesa.

“Neste mercado, acreditamos que o País tem o mesmo potencial da China, pois os brasileiros estão cada vez mais abertos aos pedidos e às transações digitais. Como exemplo, nossos usuários que assinam o Rappi Prime (pacote de serviços mensal que isenta frete) usam o app até cinco vezes na semana. Alguns clientes chegam a utilizar mais de uma vez no dia”, acrescenta o executivo.

Novas categorias

Para intensificar sua força na corrida dos super apps, a colombiana tem adicionado novos produtos e serviços a cada 19 dias em sua plataforma, que já reúne desde restaurantes e farmácias até produtos para pet e aluguel de patinetes. A escolha de novas verticais ganhou o reforço do botão “qualquer coisa”, disponível há poucos meses no app. Com base nos pedidos dos usuários, a startup consegue atender com mais assertividade as necessidades dos consumidores.

Um dos pedidos atendidos foi a entrada na categoria de táxis. Através da parceria com a Wappa, agora a Rappi também vem acirrando a competição com empresas como Uber e 99. Outra iniciativa que promete causar indigestão para players como Uber Eats e iFood é a investida no segmento de dark kitchens, as cozinhas compartilhadas.

Operando no estilo WeWork, elas vêm sendo testadas há quase um ano e prometem ser o principal ingrediente para engordar sua vertical de refeições. Até o momento, já são 100 delas em funcionamento em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, e mesclam operações da Rappi e de parceiros.

Ricardo Bechara

Ricardo Bechara, da Rappi: “Acreditamos que o País tem o mesmo potencial da China, pois os brasileiros estão cada vez mais abertos aos pedidos e às transações digitais”. Foto: divulgação

O conceito de cozinhas compartilhadas é muito usado em mercados como China e Estados Unidos. Os espaços estão localizados, em grande parte, nas regiões periféricas e são focados para atender as demandas dos aplicativos de entrega. O modelo possibilita o aumento da cartela de clientes ao expandir para localidades que até então não eram possíveis atender devido à distância.

“Esse formato permite que os empreendedores ampliem seus negócios de forma rápida, sem ter de investir em um novo imóvel, uma vez que encontram a infraestrutura do local pronta. O consumidor, por outro lado, tem uma experiência ainda melhor e mais ágil no delivery: o tempo de entrega diminui e a qualidade aumenta”, justifica o executivo, que trouxe redes como Alcapizza e Sushi 1 para dentro de suas cozinhas.

A julgar pelos números recentes divulgados pela consultoria Euromonitor, a aposta no mercado de refeições tende a ser bem-sucedida. Os pedidos online no Brasil vêm crescendo a cada ano e alcançaram, só em 2019, R$ 19,5 bilhões. 

Para Bechara, a alta também favorece outras verticais, ajudando a disseminar o conceito dos super apps. “Este mercado tem ajudado a acelerar a maturidade digital, impulsionando compras de outros produtos e serviços pelo smartphone”, comemora.

Solução de pagamentos própria

A exemplo dos super aplicativos asiáticos, a Rappi também desenvolveu sua própria solução de pagamentos – a RappiPay -, que possibilita pagar contas em estabelecimentos parceiros através de QR Code, dispensando cartões físicos e dinheiro em espécie.

A plataforma ainda faz transferência de até R$ 2,5 mil entre os usuários, através do número de telefone da pessoa. Ao cadastrar o cartão de crédito, é necessário, apenas, digitar o número do destinatário e o valor é enviado gratuitamente em tempo real.

Para fomentar as transações digitais, dentro da plataforma há diferentes incentivos, de acordo com os estabelecimentos, onde é possível encontrar descontos, cashbacks e bônus.

Super aplicativos X mudança cultural

De acordo com o executivo, embora o País esteja avançando digitalmente, é preciso incentivar um dos maiores propulsores para a consolidação dos super apps no mercado latino-americano: a mudança cultural.

“As pessoas ainda estão conhecendo tudo que um super aplicativo pode fazer por elas. É mais claro a compra de comida pela nossa plataforma, mas elas já estão entendendo que também podem pedir um remédio para dor de cabeça, fazer as compras do mês, sacar dinheiro e uma outra infinidade de coisas”, afirma. “A mudança já está ocorrendo.”

Para Ricardo Sfeir, analista de digital consumer da Euromonitor, nessa atual “corrida do ouro” dos super apps, a startup colombiana promete chegar na frente. “Por conta da gama de serviços que passou a oferecer, a Rappi é, sem dúvida, a grande aposta do mercado latino-americano”, diz. “Soma-se também o fato dos consumidores estarem mais digitalizados, ajudando a impulsionar a empresa.”

Tratando-se do Brasil, segundo o analista, é uma questão de tempo para nos tornarmos o próximo país de destaque no cenário digital. “O brasileiro é entusiasta de tecnologia e não abre mão de ter um bom smartphone. Com isso, aumenta a possibilidade de usar o celular para fazer tudo. Veremos a representatividade do mobile cada vez maior”, afirma.

(Matéria publicada em março de 2020).

Redação Autor

Equipe responsável pela produção de matérias, artigos e curadoria de conteúdos e estudos sobre o universo digital.

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