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Reunindo todos os conceitos que veremos com mais força no setor varejista em breve, a marca Oficina Reserva se destaca na “passarela da inovação” com suas soluções digitais: um algoritmo que cria produtos e coleções, consultores e vendedores equipados com tablets e smartphones, lojas sem caixa e mapeamento das peças

Nas três lojas da Oficina Reserva (uma em São Paulo e duas no Rio de Janeiro), as coleções masculinas, que mesclam modelos básicos e camisas sob medida, são apresentadas em um clima de descontração. Nos espaços, há barbearia, atelier de costura para ajustes e um bar em parceria com a Johnnie Walker.

Mas o que chama atenção mesmo é como utilizam a tecnologia na operação. Tendências que veremos cada vez mais no varejo já são encontradas na fashiontech (termo dado às empresas que misturam moda e tecnologia).

“Nossas lojas não têm caixa. A transação é mobile, com o próprio vendedor na hora da compra. Ele vende, recebe o pagamento e entrega a mercadoria”, diz Felipe Siqueira, cofundador da Oficina Reserva.

Para o empresário, este modelo de transação é natural, uma vez que o mundo está mais digital. “Nossas grandes referências ou benchmarks são as empresas de tecnologia e não da moda”, afirma o executivo, que ressalta, sobretudo, a experiência do consumidor.

“Mas, independentemente do número de tecnologias de um negócio, não podemos esquecer que são pessoas reais que compram, então temos que tratar nosso cliente como um indivíduo e não como um número.”

A Oficina Reserva utiliza o pagamento mobile também para estreitar o relacionamento com o cliente, como explica o vendedor Raphael Mendonça, da unidade dos Jardins, em São Paulo.

“A vantagem de não ter caixa para realizar a venda resulta, em grande medida, no estreitamento da relação com o consumidor e maior autonomia do vendedor com o seu estoque e com questões de retaguarda, tudo agora incluído em um só dispositivo móvel. Dessa forma, é possível conduzir o atendimento de forma cada vez mais pessoal, afinando laços, criando identidades e, principalmente, sem perder o timing de aproximação com o cliente, já que não é mais preciso ter a obrigatoriedade de conduzi-lo para terceiros na hora de finalizar a compra.”

Além da questão do pagamento, a tecnologia também está inserida em outras formas. As peças têm uma etiqueta especial, uma espécie de chip, que fornece dados sobre os itens que são provados e descartados pelo consumidor. “O sistema de mapeamento das peças nos dá todos os dados de gostos e preferências dos clientes na loja, o que nos ajuda a desenvolver novas coleções”, ressalta Siqueira.

Investir em tecnologia para melhorar a experiência do consumidor e ficar mais próximo dele pode ser, de fato, uma boa aposta. Um estudo da Medallia Analysis, publicado pela Harvard Business Review, mostra, em números, o crescimento da receita de uma empresa que valoriza a experiência do cliente.

A companhia que foi melhor avaliada pelos consumidores teve aumento de receita anual 2,4 vezes maior em relação à empresa que alcançou menos pontos.

Afinal, consumidores satisfeitos se tornam mais fiéis à marca, certo? Para Felipe Siqueira, pode contribuir, sim. “A experiência do cliente gera pontos agora e no futuro”, opina. Ao que tudo indica, as iniciativas da Oficina Reserva têm dado retorno: mais cinco lojas com o mesmo conceito devem ser inauguradas em 2020.

A inovação também tem aberto caminho para um novo mercado: o de franquias. “Estamos desenvolvendo este modelo de negócio para o próximo ano”, adianta o cofundador.

Tecnologia desde sempre

A história da marca começou há cinco anos, quando Felipe Siqueira, na época executivo de uma empresa de headhunter, contratou os serviços de um alfaiate. Na época, seus colegas de trabalho também se interessaram pelas camisas sob medida, sobretudo, pela comodidade de contar com um profissional que fosse ao escritório.

Ao final da visita, o alfaiate garantiu encomendas que, juntas, somavam mais de R$ 25 mil. Estava aí uma grande oportunidade. Imagina, então, se a tecnologia ajudasse o negócio se tornar escalável?

Com esse pensamento martelando na cabeça, Siqueira pediu demissão e se uniu aos amigos Gabriel Zandomênico e João Paulo Pesce para desenvolver um algoritmo inovador, que agilizasse a produção de camisas sob medida e, assim, reduzisse custos. Tempos depois, Artur Bretas entrou para a sociedade.

Em 2015, nascia a Social Tailor. “Nosso software é baseado nesse algoritmo, que faz a leitura de medidas corporais e cria um molde perfeito para cada tipo de corpo”, explica Siqueira.

O esquema tecnológico chamou a atenção do empresário Rony Meisler, dono do grupo carioca Reserva, cujo faturamento deve alcançar R$ 400 milhões este ano. Após uma joint venture em 2017, a Social Tailor se transformou em Oficina Reserva.

Hoje, o software está ainda melhor. Há mais de 10 mil medidas de homens brasileiros no sistema, garantindo assim precisão, por reduzir erros humanos, e preço mais baixo por conta da escalabilidade na confecção.

“Usamos uma técnica de machine learning para o aperfeiçoamento da ferramenta, ou seja, quanto mais medidas tiramos, mais preciso ele fica”, diz Felipe Siqueira. “Começamos a desenhar a modelagem perfeita para o nosso cliente e desenvolvemos um novo algoritmo para processar essas medidas e criar o P, M e G de forma mais acertada.”

“A experiência do cliente gera pontos agora e no futuro”, diz Felipe Siqueira, cofundador da Oficina Reserva. Foto: divulgação

Enquanto um alfaiate tradicional cobra, em média, entre R$ 500 e R$ 600 por uma camisa sob medida, a Oficina Reserva produz a partir de R$ 299. Já o tempo de entrega da peça pronta caiu de 60 dias para 15 dias.

Segundo o executivo, outro diferencial da tecnologia é que ela garante mais de 300 mil combinações, entre tecidos, colarinhos, punhos, caimento e monograma.

Atualmente, são produzidas, em média, duas mil camisas sob medida por mês, que se destacam também por não exibirem a marca nem o logotipo da Oficina Reserva – uma estratégia que vai ao encontro dos anseios de seus clientes. “Nosso público são homens preocupados em se sentir bem com o que vestem, mas que não querem ser um outdoor”, explica.

À moda Natura

A Oficina Reserva atua também de modo semelhante às empresas Natura e Avon – de porta em porta. Hoje, caso o cliente não possa ir a uma loja, um consultor de estilo vai ao seu encontro, em casa ou no escritório, sempre com duas ferramentas de trabalho: fita métrica e smartphone.

Atualmente, há 150 consultores em cinco cidades brasileiras (Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Salvador), mas até o ano que vem esse número pode chegar a 400, ampliando a abrangência. Foi atendendo dessa maneira, inclusive, que a marca começou a atuar e ganhar espaço no mercado.

Nas lojas da Oficina Reserva, a transação é mobile: o vendedor faz a venda, recebe o pagamento e entrega a mercadoria. Foto: divulgação

“Além da Natura, nos inspiramos em empresas digitais como Amazon, Apple e Zappos”, comenta Siqueira. A comparação com as marcas de cosméticos deve-se ao fato de que depois que as medidas são tiradas, elas são inseridas em um aplicativo e enviadas aos profissionais da empresa. Assim como ocorre com os pedidos da Avon e da Natura, que são enviados digitalmente pela consultora, e, posteriormente, entregues em casa.

No caso da Oficina Reserva, há mais um ganho com o processo digital: após o envio das medidas, a tecnologia garante o desenho do molde em seis minutos. Para efeito de comparação, no método tradicional, o mesmo trabalho pode levar mais de duas horas.

Para Pietro Delai, gerente de consultoria e pesquisa da IDC Brasil, ações digitais tendem a ter cada vez mais aceitação e sucesso no mercado exatamente pela agilidade.

“As pessoas querem praticidade, por isso, todas as soluções que vêm para simplificar nossa rotina costumam ter êxito”, diz. “E, ainda, temos um grande propulsor para essas iniciativas: o próprio brasileiro, que é apreciador de tecnologia”, afirma. A Oficina Reserva tem tudo para servir de inspiração para muitas empresas. E não só as de moda.

(Matéria publicada em novembro de 2019). 

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