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A fintech SumUp poderá entrar com mais força na briga entre gigantes do setor de pagamentos: o impulso virá do aporte de R$ 500 milhões em sua operação brasileira. Veja como a empresa pretende ganhar mercado e competir, de maneira mais equilibrada, com as maquininhas adversárias

Jorge Paulo Lemann diz que “sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho”. Esse mesmo pensamento também tem rondado a fintech global SumUp em solo brasileiro. Ela sonha grande: quer estar presente no cotidiano da maior parte dos 8,1 milhões de microempreendedores no País.

No entanto, para que o sonho se torne realidade, ela terá que enfrentar gigantes como PagSeguro e Getnet, que compartilham o mesmo desejo.

Para a briga ficar mais equilibrada, a operação brasileira ganhará investimento de R$ 500 milhões este ano, parte obtida na última rodada que levantou € 330 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão) com os fundos Bain Capital Credit, Goldman Sachs Private Capital, HPS Investment Partners e TPG Sixth Street Partners.

O montante viabilizará a contratação de mais 100 funcionários – que se juntarão à equipe de 700 pessoas -, e será empregado na expansão do portfólio de produtos e serviços. Em entrevista à CWS, Fabiano Camperlingo, CEO da SumUp no Brasil, diz, inclusive, que não descarta virar banco digital.

“Uma das principais dores do microempreendedor está relacionada à bancarização. Neste exato momento, estamos estudando como podemos ajudar nossos clientes nesse processo”, afirma o executivo. “O que possivelmente poderia se materializar por meio de uma conta digital”, adianta à CWS.

Fundada em 2012 em Berlim, na Alemanha, ela já nasceu com foco no microempreendedor, e não tardou para suas pequenas maquininhas brancas ganharem três continentes.

Hoje, elas estão presentes em 31 países e na vida de mais de 1,5 milhão de microempreendedores. No Brasil desde 2013, já são 500 mil clientes, entre autônomos e MEIs, que operam com seus produtos.

A média mensal de transações desses clientes é de R$ 2 mil. São profissionais das mais diversas áreas, como manicures, vendedores de roupas e cosméticos, tatuadores, entre outros.

Pela extensão geográfica e número elevado de microempreendedores e autônomos, o País está entre os três maiores mercados da empresa. Soma-se a isso, o comportamento de compra do brasileiro.

Outras estratégias

Fabiano Camperlingo, CEO da SumUp no Brasil: “Nosso maior competidor é o dinheiro”. Foto: divulgação

“Diferentemente do que existe em outros lugares do mundo, aqui no Brasil, se você vende qualquer coisa que custe mais do que R$ 50, precisará aceitar cartão, porque seu cliente vai querer parcelar”, comenta Camperlingo. “Isso torna o País o cenário perfeito para empresas como a SumUp.”

Pequenos na mira

As companhias de adquirência que antes não olhavam para os micro e pequenos empreendedores, agora passam a oferecer soluções direcionadas a eles, caso da Cielo e da Rede, que lançaram versões para ambos os públicos.

Uma nova empresa de pagamento, no entanto, pode chegar com força daqui a alguns meses. O Grupo Globo anunciou uma joint venture com a Stone para lançar um produto – ainda sem nome definido – voltado aos MEIs.

Na mesma sintonia, o PayPal, que opera com carteira digital, também se prepara para atuar com maquininhas em breve, acirrando ainda mais a guerra entre elas.

A briga pela maior fatia de mercado não assusta o executivo da SumUp. “É um movimento saudável, especialmente, porque permite que o empreendedor escolha a melhor solução para o seu negócio”, diz ele, que enxerga o papel-moeda como o maior rival de todos.

“Nosso maior competidor, na verdade, é o dinheiro: 60% das transações são feitas em espécie. Mais do que competir com grandes players, temos que nos preparar para mudar esse comportamento e fazer aqueles que não aceitam cartão passarem a aceitar.”

Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), a digitalização vem mudando esse cenário. Em 2009, as compras com cartões alcançaram R$ 400 bilhões em transações; enquanto em 2018, atingiram R$ 1,55 trilhão, aumento de 163%.

Mudanças positivas

“Os consumidores finais passaram a exigir cada vez mais que os estabelecimentos aceitassem cartões como forma de pagamento. Isso é demonstrado em nossos números também: temos adicionado cerca de quatro mil novos clientes por dia à operação global”, afirma.

A digitalização garante mais vendas

Para o executivo, oferecer a opção eletrônica de pagamento pode alavancar mais as vendas, uma vez que as pessoas estão deixando de andar com dinheiro em espécie e aderindo mais aos cartões e outras formas de pagamento digitais.

“Isso significa que, ao oferecer uma máquina de cartão, micro e pequenos negócios conseguem garantir que não perderão nenhuma venda por falta de opções de pagamento para seus clientes”, opina.

Além disso, ao aderir à digitalização, o empreendedor evita possíveis calotes por vender “fiado”, pelo fato de o cliente não ter dinheiro em espécie naquele momento. “O comerciante tem a possibilidade, ainda, de fazer um controle financeiro melhor ao acessar seu relatório de vendas no site da empresa”, diz Camperlingo.

Para pescar cada vez mais empreendedores, a isca continua sendo as taxas baixas. E a SumUp não foge à regra. Com a simpática maquininha branca, o profissional paga taxa de 1% a cada transação nos três primeiros meses, tem isenção de aluguel, dinheiro das vendas depositado na conta em um dia útil e a opção de recebimento antecipado, mesmo em vendas parceladas.

Após o primeiro trimestre, a taxa para transações no crédito à vista começa em 3,10% e pode chegar a 4,60%; enquanto no débito, 1,90%.

Para efeito de comparação, a PagSeguro cobra taxa a partir de 4,99% no crédito e 1,99% no débito. “Não somos apenas uma empresa de maquininha, nem mesmo só uma de pagamentos: queremos ajudar o pequeno a crescer”, justifica o executivo da SumUp.

Mercado aquecido

O setor de adquirência tende a crescer e se desenvolver cada vez mais, inclusive, pelos investimentos mais agressivos que têm chegado às principais fintechs. Como exemplo, a Stone e a PagSeguro. Após a entrada na Bolsa de Nova York no ano passado, elas levantaram R$ 1,5 bilhão e R$ 2,7 bilhões, respectivamente.

Este ano pode ser ainda melhor para o mercado. “A expectativa é que haja aumento de 40% do montante de investimentos efetuados em fintechs e de 25% no surgimento de novos entrantes”, estima Diego Perez, diretor da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs).

Do lado da SumUp, a injeção milionária manterá a companhia no mesmo ritmo de crescimento. A operação brasileira gerou R$ 250 milhões de receita em 2018. “Com o investimento de R$ 500 milhões, a previsão é continuar crescendo três dígitos no País em 2019”, afirma Fabiano Camperlingo, sem citar números específicos. A nível global, a SumUp espera gerar € 200 milhões (cerca de R$ 846 milhões) este ano.

O aporte também viabilizará a entrada da tecnologia NFC (near field communication) em suas maquininhas. Ela permite pagamentos por aproximação, através de cartões e acessórios. “Esse tipo de transação vem ganhando força nos últimos anos e, por isso, ainda em 2019, lançaremos produtos com a tecnologia”, adianta.

Apesar de ter alcançado o sucesso com suas pequenas maquininhas, o executivo também imagina um futuro sem elas. E isso, não assusta a companhia.

“A SumUp está preparada para um mundo onde a maquininha vai deixar de existir. No entanto, não será daqui a três ou cinco anos. Em dez anos, ainda, há uma grande chance de que ela coexista com outras soluções”, prevê.

“Existe uma grande parte da população que só muda de tecnologia quando a anterior não existe mais. De todo modo, estaremos prontos para atender quem quer e quem não quer usá-la”, afirma.

A julgar pela resiliência da empresa, o sonho de conquistar um mercado cada vez maior poderá se tornar realidade em pouco tempo. Um baita pesadelo para a concorrência.

(Matéria publicada em agosto de 2019). 

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Redação Autor

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